José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 04 de dezembro de 2017 às 20:02

Existe Europa sem Merkel?

Angela Merkel faz parte de uma estirpe de líderes, em vias de extinção, para quem a Europa é uma aspiração de paz e prosperidade.

A FRASE...

 

"É tempo de os políticos alemães perceberem o que está em causa [nas negociações para a formação do governo] para o seu país e para o resto do mundo ocidental."

 

Der Spiegel, 27 de novembro de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Depois do fracasso das negociações da coligação Jamaica, a chanceler Merkel procura agora reeditar a "grande coligação" entre CDU/CSU e SPD, que governou a Alemanha nos últimos quatro anos, não obstante a rejeição desta solução por parte dos eleitores nas eleições de setembro. O problema é que a repetição dessa coligação beneficiaria desproporcionadamente Merkel em detrimento do SPD, uma vez que a primeira se manteria chanceler, enquanto o segundo agonizaria por mais um mandato numa posição subalterna, que se poderia revelar fatal em eleições futuras. Acontece que a alternativa de novas eleições poderia (como indicam as sondagens) enfraquecer ainda mais os partidos centristas e europeístas por contrapartida de um reforço das forças mais extremistas e eurocéticas. Neste cenário, é muito provável que Merkel se retirasse de cena.

 

Depois de doze anos à frente da Alemanha e da Europa, Merkel é hoje a única referência na realidade europeia. Sem ela dificilmente se manteriam os frágeis equilíbrios que foram forjados durante a crise entre uma periferia estrangulada pelo peso da dívida e um centro que não prescinde de um cêntimo do crédito concedido. Sem ela seria muito mais difícil calar os Varoufakis e as Le Pen da vida, que têm em comum o desiderato de desmantelar a Europa de que Merkel foi a grande artífice (neste século). Sem ela seria difícil legitimar a estratégia do BCE de manutenção da viabilidade financeira de uma economia europeia excessivamente endividada à custa de políticas penalizadoras da poupança, de que é pródigo o bloco germânico. Será que a Europa sobreviveria à partida de Merkel?

 

Angela Merkel faz parte de uma estirpe de líderes, em vias de extinção, para quem a Europa é uma aspiração de paz e prosperidade e, simultaneamente, o único travão para a perda de relevância geoestratégica num mundo cujo centro se afasta cada vez mais do Velho Continente. É por essa razão que as atuais negociações entre CDU/CSU e SPD assumem uma importância absolutamente dramática.

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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