Vítor Ramon Fernandes
Vítor Ramon Fernandes 24 de Novembro de 2016 às 21:33

Existirão diferenças fundamentais entre Fillon e Juppé?

Os dois candidatos às eleições primárias da direita em França têm ambos uma vasta experiência política. Mas têm também visões significativamente distintas da França e do mundo que importa compreender por terem implicações bastante diferentes.

Dos candidatos que disputarão a segunda volta das eleições primárias da direita em França, François Fillon e Alain Juppé, poder-se-ia pensar que sendo ambos do mesmo partido, "Les Républicains", o que está em jogo, acima de tudo, são personalidades diferentes. Os programas parecem semelhantes e o que estaria em causa seria, fundamentalmente, uma questão de grau em relação à implementação das políticas.

No entanto, as divergências políticas entre ambos são significativas e merecem ser relevadas. Vale a pena salientar três diferenças porque, caso um deles venha a ser Presidente da República, isso significa duas visões distintas no que concerne a política interior da França, mas também no que respeita à política internacional. As principais diferenças são, no plano económico, na relação com a Rússia e nos valores que professam em relação à sociedade.

No que respeita à política económica, o programa de François Fillon é mais liberal. Algumas medidas de política económica incluem uma redução de 100 mil milhões de despesas públicas em cinco anos e 500 funcionários públicos, acabar com o limite das 35 horas de trabalho semanais regressando às 39 horas no sector público e ir até 45 horas no privado. Inclui também aumentar a taxa do IVA em 2%, para 22%. Do lado de Alain Juppé, existe a vontade de reduzir 250 funcionários públicos, metade de Fillon, de reduzir as despesas públicas entre 86 e 100 mil milhões, permitir um aumento das horas de trabalho semanais através de acordos com os sindicatos e, caso não seja possível, utilizar como referência 39 horas por semana. Quer também aumentar em 1% a taxa do IVA, metade de Fillon. Do ponto de vista das medidas de natureza económica, poder-se-ia considerar que, eventualmente, o que está em causa acima de tudo são graus e velocidades diferentes na implementação das políticas, o que não é forçosamente anódino para uma sociedade como a francesa.

Relativamente à relação com a Rússia, as diferenças são notórias. Diferentemente de Juppé, François Fillon preconiza uma aproximação à Rússia, que seria no seguimento de um bom relacionamento já existente entre Fillon e Putin. Esta alteração teria certamente implicações significativas em termos de política externa de defesa e segurança europeia.


No que concerne as diferenças mais significativas em relação aos valores que professam em relação à sociedade, elas são também importantes. Juppé insere-se na tradição do Presidente Jacques Chirac, numa perspectiva de que as reformas são para serem feitas lentamente, sem agitar muito as condições existentes na sociedade e o seu modo de funcionar habitual, o que em boa verdade se tem também traduzido nalguma inércia na capacidade da França se adaptar a várias alterações que se têm verificado no mundo contemporâneo. François Fillon é mais radical. E assume esse radicalismo. Considera que está na altura da França mudar, significativamente, e de se adaptar às exigências desse mesmo mundo moderno.

Assim, tendo em consideração que as probabilidades de o próximo Presidente da República Francesa ser um destes candidatos são elevadas, importa notar que as implicações de ser um ou outro não são, contrariamente ao que se poderia pensar, indiferentes.

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