José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 20 de setembro de 2017 às 18:50

Fábrica de populismos

Wolfgang Schäuble voltou a criticar a política monetária do BCE por esta fabricar populismos na sociedade alemã. Presumivelmente, a sua intenção foi tentar esvaziar as pretensões da direita nacionalista nas eleições legislativas deste fim de semana.

A FRASE...

 

"O ministro das Finanças alemão pediu ao BCE para abandonar o programa de compra de dívida e as taxas de juro negativas (…). Anteriormente, ele já dissera que as políticas do BCE estavam a contribuir para a ascensão do partido nacionalista AfD."

Financial Times, 8 de setembro de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Mas num plano mais substancial, será justa a acusação de que o extremismo monetário gera extremismo político?

 

A resposta é afirmativa. As condições monetárias acomodatícias criam efeitos que alimentam o populismo. Primeiro, favorecem a valorização dos ativos financeiros, enriquecendo os seus detentores, que estão concentrados nos patamares cimeiros da pirâmide da riqueza, exacerbando a desigualdade económica. Segundo, provocam o aumento do custo de vida, nomeadamente na vertente habitacional, o que conduz à perda de poder de compra dos trabalhadores cujos salários estão truncados pelas pressões competitivas advenientes da globalização. Terceiro, levam ao aumento dos custos de produção, o que num contexto de baixíssimas taxas de juro cria incentivos ao aprofundamento da automação da produção, ou seja, à troca dos trabalhadores menos diferenciados por máquinas, com o consequente alargamento do fosso entre classes socioeconómicas.

 

Naturalmente, este não é um problema exclusivo da Alemanha. O Brexit e a eleição de Trump são consequências do mesmo tipo de fenómeno. Mas na Alemanha o BCE constitui um alvo político ainda mais fácil pela ideia propalada pela direita nacionalista, representada pelo AfD, de que o BCE é uma espécie de agência de assistência financeira que beneficia os países da periferia em detrimento da Alemanha. Este argumento, apesar de politicamente pungente, é falacioso no sentido em que omite as consequências – para a Alemanha – se o BCE se tivesse abstido de fazer tudo para evitar o colapso do euro.

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

 

A sua opinião1
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
5640533 24.09.2017

O excedente de Alemanha e o nosdo défice. Schaeuble não fala disto.

pub