Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 10 de janeiro de 2018 às 19:56

Factos e condições iniciais

O Estado é hoje frágil e vulnerável porque foi penetrado e corrompido por interesses de meia dúzia de grupos, de famílias e de bancos sem escrúpulos.

A FRASE...

 

"O Estado ficou frágil diante dos interesses de meia dúzia de grupos, de famílias e de bancos sem escrúpulos, com métodos que incluíram o banditismo, o crime de colarinho branco e o aproveitamento de oportunidades que o regime democrático oferecia."

 

António Barreto, Diário de Notícias, 7 de Janeiro de 2018

 

A ANÁLISE...

 

Os factos são o que são, não há argumentos que os desmintam. Mas os factos têm origens, são dependentes das suas condições iniciais. É certo que as condições iniciais não têm de ser fatalidades que não possam ser corrigidas ou compensadas. Porém, para que essa correcção possa ser feita, é necessário que haja uma avaliação crítica do que são essas condições iniciais, do mesmo modo que as decisões que se tomam depois dessa avaliação têm de assumir que o futuro já não irá encontrar as condições que permitiram a existência do passado. O Estado é hoje frágil e vulnerável porque foi penetrado e corrompido por interesses de meia dúzia de grupos, de famílias e de bancos sem escrúpulos, ou porque quis ser forte e dominador e não conseguiu tornar sustentável esse projecto?

 

Esta é uma questão importante para se compreender o presente, pois foram tomadas decisões, num passado já longínquo, mas onde estão as condições iniciais que determinam os acontecimentos actuais, que deliberadamente pretendiam impedir a democracia pluralista e a economia de mercado. Num intervalo temporal muito curto, entre meados de Fevereiro e meados de Março de 1975, a política portuguesa evoluiu de um programa de desenvolvimento económico de orientação social de mercado, que ficou conhecido como o programa Melo Antunes, para o programa das nacionalizações, de orientação comunista-militar, que estabelecia o Estado forte controlador da economia. Esse projecto fracassou, mas as suas consequências persistem, eram irreversíveis, são as condições iniciais que determinam o presente de um Estado frágil e vulnerável, porque configurou uma sociedade frágil dependente do Estado frágil, e uma economia vulnerável, dependente de um Estado vulnerável com a dívida que acumulou.

 

Os factos não se desmentem, mas as condições iniciais (nacionalizações sem indemnizações justas e atempadas) que determinam os factos não podem ser ignoradas quando se encontra o Estado frágil e vulnerável que quis ser forte e dominador.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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