Dani Rodrik
Dani Rodrik 27 de Dezembro de 2016 às 20:00

Falar sobre comércio sem panos quentes

Esta relutância em ser honesto no que diz respeito ao comércio custou aos economistas a sua credibilidade junto da opinião pública. Pior ainda, alimentou a narrativa dos seus adversários.

São os economistas parcialmente responsáveis pela chocante vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas? Mesmo que eles não tenham sido capazes de parar Trump, os economistas teriam tido bem maior impacto no debate público se se tivessem mostrado mais fiéis aos preceitos da sua disciplina, em vez de alinharem com "as cheerleaders" da globalização.

 

Quando o meu livro Has Globalization Gone Too Far? foi para impressão há quase duas décadas, cheguei junto de um muito conhecido economista para lhe perguntar se estaria disponível para escrever um comentário para a contracapa. Argumentei no livro que, na ausência de uma resposta governamental mais concertada, uma globalização excessiva aprofundaria as clivagens na sociedade, exacerbando os problemas distributivos e minando os acordos sociais domésticos – argumentos que se tornaram senso comum desde então.

 

O economista apresentou reparos. Disse que, na verdade, não discordava de nenhuma das análises, mas mostrou-se preocupado por o meu livro poder fornecer "munições para os bárbaros". Os proteccionistas utilizariam os argumentos apresentados no livro acerca das desvantagens da globalização para justificar a sua agenda redutora e egoísta.

 

É uma reacção que eu continuo a receber dos meus colegas economistas. Um deles irá levantar hesitantemente a mão numa conferência e perguntar: você não teme que os seus argumentos sejam utilizados de forma abusiva e sirvam os demagogos e populistas que pretende denunciar?

 

Existe sempre o risco de que os nossos argumentos sejam desvirtuados no âmbito do debate público por aqueles com quem discordamos. Mas eu nunca compreendi o porquê de tantos economistas acreditarem que isso implica que devemos enviesar os nossos argumentos acerca do comércio numa direcção particular. A premissa implícita parece ser a de que existem bárbaros em apenas um dos lados do debate sobre comércio. Aparentemente, aqueles que se queixam das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) ou dos acordos comerciais são horríveis proteccionistas, enquanto aqueles que as defendem estão sempre do lado dos anjos.

 

Na verdade, muitos entusiastas do comércio não são menos motivados pelas suas próprias redutoras e egoístas agendas. As farmacêuticas que prosseguem regras sobre patenteação mais rígidas, os bancos que pugnam pelo livre acesso aos mercados estrangeiros, ou as multinacionais que procuram tribunais especiais arbitrais não têm o interesse geral em maior consideração do que têm os proteccionistas. Por isso, quando os economistas mascaram os seus argumentos estão efectivamente a favorecer um conjunto de bárbaros em detrimento de outro.

 

Há já muito tempo que existe uma regra tácita de compromisso público segundo a qual os economistas devem defender o comércio e não ligar muitos às letras pequeninas. Isto produziu uma situação curiosa. Os modelos estandardizados de comércio sobre os quais os economistas trabalham produzem efeitos distributivos notáveis: as perdas de rendimentos por parte de certos grupos de produtores ou categorias de trabalhadores são o lado negativo dos "ganhos do comércio". E de há muito tempo a esta parte os economistas sabem que essas falhas no mercado – incluindo o mau funcionamento dos mercados laborais, imperfeições nos mercados de crédito, externalidades do conhecimento ou ambientais, e monopólios – podem interferir no aproveitamento desses ganhos.

 

Sabem também que os benefícios económicos dos acordos comerciais que vão para lá das fronteiras para modelar regulamentos domésticos – como acontece com o estreitar das regras sobre patentes ou com a harmonização das exigências de saúde e segurança – são fundamentalmente ambíguos.

 

Todavia, pode contar-se que os economistas repitam como papagaios as maravilhas das vantagens comparativas e do comércio livre sempre que os acordos comerciais venham à baila. Têm consistentemente minimizado as preocupações com as questões distributivas, mesmo que agora esteja claro que o impacto distributivo do, digamos, Acordo de Comércio Livre Norte-Americano (NAFTA), ou da entrada da China na OMC, foram significativos para as comunidades mais directamente afectadas nos Estados Unidos. Sobreavaliaram a magnitude dos ganhos agregados decorrentes dos acordos comerciais, pese embora tais ganhos tenham sido relativamente pequenos desde, pelo menos, o início dos anos 1990. Avalizaram a propaganda que pinta os actuais acordos comerciais como "acordos de livre comércio", mesmo que isso possa levar Adam Smith e David Ricardo a darem voltas nos caixões se lerem a Parceria Transpacífico (TPP).

 

Esta relutância em ser honesto no que diz respeito ao comércio custou aos economistas a sua credibilidade junto da opinião pública. Pior ainda, alimentou a narrativa dos seus adversários. O falhanço dos economistas em fornecer um quadro completo do comércio, com todas as distinções e avisos necessários, tornou mais fácil culpar o comércio, muitas vezes erradamente, com todos os tipos de efeitos adversos.

 

Por exemplo, assim como o comércio pode ter contribuído para elevar as desigualdades, este é apenas um factor a contribuir para aquela tendência generalizada – e, com toda a probabilidade, relativamente menor comparativamente com a tecnologia. Tivessem os economistas sido mais directos em relação aos efeitos negativos do comércio, e poderiam ter beneficiado de maior credibilidade enquanto agentes honestos neste debate.


De forma similar, poderíamos ter tido uma discussão pública mais informada acerca do "dumping" social se os economistas estivessem disponíveis para reconhecer que as importações de países onde os direitos laborais não são protegidos levantam questões sérias sobre a justiça distributiva. Poderia ter sido possível distinguir os casos em que os salários baixos em países pobres reflectem a baixa produtividade dos casos de genuína violação de direitos. E a maior parte do comércio que não levanta tais preocupações poderia ter sido mais bem isolada relativamente às acusações de "comércio injusto".

 

Do mesmo modo, se os economistas tivessem dado ouvidos aos seus críticos que alertaram para a manipulação cambial, desequilíbrios comerciais e perda de empregos, em vez de se agarrarem a modelos que ignoram tais problemas, poderiam ter ficado numa melhor posição para contrariar os argumentos excessivos sobre o impacto adverso dos acordos comerciais sobre o emprego.

 

Em resumo, tivessem os economistas apresentado publicamente as advertências, incertezas e cepticismo das salas de seminários, e poderiam ter-se tornado melhores defensores da economia mundial. Infelizmente, o seu zelo em defender o comércio dos seus inimigos fez ricochete. Se os demagogos e os seus argumentos disparatados acerca do comércio estão agora a ser ouvidos – e, nos Estados Unidos e noutras regiões estão realmente a conquistar poder – é aos académicos impulsionadores do comércio que cabe, pelo menos, parte da culpa.

 

Dani Rodrik é professor de Economia Política Internacional na John F. Kennedy School of Government de Harvard, e é o autor do livro Economics Rules: The Rights and Wrongs of the Dismal Science.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.

www.project-syndicate.org

Tradução: David Santiago

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JCG Há 3 semanas

Muito bem!