Paulo Carmona
Paulo Carmona 09 de agosto de 2017 às 19:44

Falar verdade

Pôr os contribuintes portugueses a financiar os utentes do Serviço Nacional de Saúde é uma medida política legítima, embora discutível como todas as medidas políticas de qualquer governo.

A FRASE...

 

"Os portugueses pouparam, em 2016, 62 milhões de euros em despesas de saúde graças à redução das taxas moderadoras e ao aumento das comparticipações."

 

António Costa, Observador, 23 de Julho de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Poupar significa reduzir gastos, economizar. O primeiro-ministro nesta frase afirma que os portugueses reduziram gastos ou economizaram 62 milhões de euros em despesas de saúde, porque pagaram menos pelos cuidados de saúde. Como as despesas de saúde não baixaram, o ministro Centeno no Parlamento garantiu que não houve cativações na saúde, nem foram apresentados ganhos de eficiência, racionalização de unidades hospitalares e/ou de utilização de blocos operatórios, de onde veio esta poupança? Pelo contrário, com a pretendida redução dos horários da função pública para as 35 horas semanais, e para manter o nível de serviço, os custos terão aumentado por contratação de mais profissionais ou por mais horas extraordinárias. Não há milagres…

 

Claro que pode haver contabilidade criativa, atrasar pagamentos ou a nova ideia de receber medicamentos e produtos à consignação, ou seja, os hospitais serem faturados três a seis meses depois de receberem os produtos farmacêuticos, mas nada disto é poupança.

 

Então, se os portugueses "pouparam" por gastar menos em saúde, mas os custos são os mesmos, quem paga esta redução que enche a boca do nosso primeiro? Resposta óbvia, os contribuintes portugueses.

 

Pôr os contribuintes portugueses a financiar os utentes do Serviço Nacional de Saúde é uma medida política legítima, embora discutível como todas as medidas políticas de qualquer governo. Não pode é ser chamada de poupança porque quem paga a fatura dessa redução das taxas moderadoras ou aumento das comparticipações é o Orçamento do Estado, alimentado pelos contribuintes. Foi um pouco como a reposição salarial na função pública à conta dos automobilistas e transportadores nacionais, através dos 7,5 cêntimos (6+IVA) de aumento nos combustíveis. São ganhos visíveis e propagandeados, pagos com custos invisíveis a dividir por muitos.

 

A isto chama-se política agressiva, para ser simpático. Ou menorização intelectual dos portugueses, para ser educado. Infelizmente estas inverdades grosseiras são exclusivas deste Governo. Têm sido utilizadas por muitos ao longo destes 43 anos de democracia, numa forma de fazer política pouco ética e de respeito pelos eleitores.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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