Faz sentido abordar os desequilíbrios comerciais bilaterais?

Os desequilíbrios comerciais bilaterais não são irrelevantes e podem ser úteis para conduzir a atenção para políticas que reduzem os rendimentos reais dos consumidores e das empresas.

Os políticos e os economistas encaram os desequilíbrios comerciais de uma forma muito diferente. Consideremos o défice comercial dos Estados Unidos. Os economistas enfatizam que o défice comercial total dos EUA com o resto do mundo é o resultado de políticas e acções domésticas. Colocando de uma forma simples: se os Estados Unidos investirem mais do que o país como um todo poupa, tem de importar a diferença do resto do mundo, criando o défice comercial existente.

 

Mas os políticos (e o público em geral) tendem a focar-se nos défices comerciais bilaterais com os países ao nível individual, como o desequilíbrio de 300 mil milhões de dólares dos Estados Unidos para com a China. Os norte-americanos atribuem as culpas por este défice bilateral, que bloqueia as importações de produtos norte-americanos e atribui subsídios às exportações chinesas para os EUA, às políticas chinesas.

 

Os economistas explicam que essas políticas afectam a composição do desequilíbrio comercial dos Estados Unidos, mas não o seu tamanho. Se a China mudasse as suas políticas comerciais de forma a reduzir o défice bilateral, o défice comercial dos EUA com alguns outros países aumentaria ou o seu excedente para com outros países diminuiria. Contudo, o défice comercial total norte-americano com o mundo não iria alterar-se.

 

Os economistas também gostam de salientar que o livre comércio aumenta o rendimento total de um país. Há vencedores e derrotados, mas os vencedores do livre comércio podem, em princípio, compensar os derrotados para que todos fiquem melhor. Os economistas não falam muito sobre esta compensação uma vez que os governos não fazem muito para a gerir a favor dos perdedores.

 

Os Estados Unidos têm políticas como o programa de Auxílio para Ajuste Comercial (TAA na sigla em inglês), que dá benefícios mais generosos aos desempregados que perderam o seu emprego devido à concorrência das importações. Mas o governo federal não dá tal assistência em larga escala, presumivelmente porque não faz qualquer esforço para dar uma compensação àqueles que perdem os seus empregos devido às mudanças tecnológicas. E está correcto.

 

As importações causam perdas a indústrias, profissões e áreas geográficas. E aqueles que perdem – ou estão a ponto de perder – devido às importações exigem medidas proteccionistas, na forma de tarifas ou quotas, aplicadas a produtos específicos. Adam Smith reconheceu isto mesmo antes de David Ricardo explicar as virtudes do livre comércio.

 

Vimos esta resposta explícita na campanha eleitoral do presidente norte-americano Donald Trump, durante a qual ele ameaçou impor tarifas aos produtos oriundos da China, México e outros países.

 

Mas agora que ele é presidente, essas tarifas elevadas ou quotas não estão à vista. Em vez disso, vemos negociações comerciais a ser conduzidas sob a ameaça de tais tarifas – levando à abertura de mercados para alguns produtos e serviços em países com os quais os EUA têm um défice bilateral.

 

A China é um bom exemplo. Depois de, originalmente, ter ameaçado com uma variedade de mudanças negativas na política norte-americana em relação à China, Trump convidou o presidente chinês, Xi Jinping, para a sua casa na Florida para aquilo que ambos os países concordaram ser uma visita amigável. Depois disso, os chineses concordaram em começar a importar carne de vaca dos Estados Unidos a partir do Verão, revogando políticas proteccionistas que estavam em vigor há vários anos. A China também concordou em abrir o seu mercado a um conjunto de serviços financeiros norte-americanos. E os Estados Unidos concordaram em vender gás natural à China, algo que os chineses queriam mas que, anteriormente, os EUA tinham recusado.

 

O resultado destas mudanças políticas vai ser uma redução do défice comercial dos Estados Unidos para com a China. Embora isto não vá mudar o défice comercial dos EUA, vai levar a uma subida dos rendimentos reais e dos lucros dos produtores norte-americanos de carne de vaca, serviços financeiros e gás natural. Os consumidores chineses também vão beneficiar.

 

Assim, neste caso, o foco do desequilíbrio comercial bilateral levou a uma mudança desejável de políticas, ainda que o défice comercial norte-americano para com o mundo não seja reduzido.

 

Mas as negociações para responder aos desequilíbrios comerciais bilaterais nem sempre têm efeitos positivos. Actualmente, os EUA estão a ameaçar impor tarifas à madeira do Canadá. Se os Estados Unidos impuserem tais tarifas, o resultado seria uma redução do desequilíbrio comercial entre os EUA e o Canadá. Mas as tarifas iriam prejudicar os construtores e os proprietários americanos, bem como as empresas madeireiras canadianas.

 

O resultado é que os desequilíbrios comerciais bilaterais não são irrelevantes e podem ser úteis para conduzir a atenção para políticas que reduzem os rendimentos reais dos consumidores e das empresas. Mas corrigir esses desequilíbrios bilaterais tem de ser feito com cautela.

 

Martin Feldstein é professor de Economia na Universidade de Harvard e presidente emérito do Departamento Nacional de Investigação Económica, e presidiu ao Conselho de Assessores Económicos do Presidente Ronald Reagan de 1982 a 1984.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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