Edson Athayde
Edson Athayde 15 de maio de 2017 às 21:08

Fernando Pessoa em Kiev

Se somos todos lindos, poderosos, felizes e perfeitos (se é para acreditar no que dizemos sobre nós mesmos nas redes sociais), não conseguimos admirar quem é como nós. A nossa vénia irá para quem transgride as regras.

Não se engane, não estranhe, não se iluda: os melhores heróis são os acidentais.

 

Não queremos, nem precisamos de mais super-homens, de mais Hércules, de mais Golias. Queremos mais Davids.

 

Queremos mais tipos como o Salvador.

 

O "nós" aqui nem é sinónimo de "Portugal". Trata-se de um "nós" ampliado, um "nós" que representa boa parte da sociedade ocidental.

 

Se somos todos lindos, poderosos, felizes e perfeitos (se é para acreditar no que dizemos sobre nós mesmos nas redes sociais), não conseguimos admirar quem é como nós. A nossa vénia irá para quem transgride as regras.

 

Como dizem os alemães, o "zeitgeist" (o espírito do nosso tempo) transformou o insosso em padrão. Para ajudar, o politicamente correto está aí para aparar todas as arestas. Vivemos como no "Poema em Linha Recta", de Pessoa:

 

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

 

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. (…)

 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

 

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

 

Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

 

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

 

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

 

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

 

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

 

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

 

Ó príncipes, meus irmãos,

 

Arre, estou farto de semideuses!

 

Onde é que há gente no mundo? (…)"

 

A conquista de Salvador Sobral é tão mais importante porque foi obtida do jeito dele, não do jeito que a maioria das pessoas dizia ser o ideal. Foi um tapa com luva branca na cara do showbiz (nacional e internacional).

 

Como tudo o que não é banal tende a virar um paradigma, espero que as lições ensinadas em Kiev provoquem questionamentos em várias áreas que não a música.

 

No marketing e na publicidade, por exemplo.

 

Quem assistiu ao Festival da Eurovisão viu dezenas de artistas a gritarem, a bailarem, viu fogos de artifício, melodias fabricadas para tocar na rádio, viu até um gorila a dançar. E, de repente, viu (e ouviu) um rapaz a cantar algo entre uma bossa nova e uma valsa, sozinho num palco diminuto, a tocar instrumentos invisíveis, a encenar intimidades.

 

Daí eu pergunto: quem você quer ser naquilo que faz? Quer ser um Salvador ou quer ser um dos outros?

 

O meu Tio Olavo recorda que "tudo vale a pena quando a alma não é pequena".

 

Está aí a chave. Somos capazes de ir muito longe quando somos apenas nós mesmos.

 

Somos Cristiano, mas também somos Éder. Aliás, somos mais Éder do que Cristiano.

 

Somos mais Salvador do que ABBA.

 

Graças a Deus.

 

Publicitário e Storyteller

edson.athayde@fcb.com

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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