Tiago Perez Sanchez
Tiago Perez Sanchez 25 de janeiro de 2018 às 22:23

Fim das filas de trânsito: realidade ou utopia?

A solução passa por procurar criar um fluxo de passageiros contínuo, gerando um elevado nível de serviço e um aumento de rentabilidade da rede que opera nesta área.

Todos os dias e com crescente frequência, assistimos a agudos constrangimentos na circulação de passageiros nos meios de transporte das grandes cidades. O aumento da afluência em períodos específicos – as denominadas horas de ponta – gera sobrelotação, stress e tempos de espera elevados. O desafio está em encontrar uma solução de equilíbrio entre a qualidade do serviço ao cliente e a rentabilidade necessária para o crescimento das empresas que gerem as redes de transporte.

 

Apesar de existirem pacotes de medidas que procuram minimizar estes problemas todos, eles parecem ser insuficientes para responder à procura crescente, exponenciada simultaneamente pelo sucessivo aumento do turismo e pelo fenómeno da descentralização das zonas residenciais. Neste contexto e concretamente para o caso de Lisboa, assiste-se a uma subida de preços na habitação bastante acelerada, com a avaliação bancária a aumentar 18,49% em apenas três anos, o que posiciona a cidade em valores que representam o dobro da média nacional.  Estes dados corroboram com uma natural tendência de afastamento das pessoas para zonas periféricas, já que estas oferecem preços mais baixos, tornando especialmente relevante a existência de uma rede eficiente de transportes coletivos que se adapte  às reais necessidades das grandes massas.

 

Fazendo uma analogia às boas práticas em contexto logístico, a metodologia Kaizen defende que a redução do tamanho do lote permite a entrega de diferentes referências com uma cadência regular. Desta forma, é possível reduzir o "stock" e tornar o processo mais ágil, gerando maior capacidade de adaptação a variações inesperadas na procura. Mesmo em casos nos quais o cliente consome grandes lotes consecutivos, o nivelamento permite uma estabilização da utilização de recursos, sejam estes materiais ou homem-horas.

 

Retomando o caso dos transportes coletivos, admitimos que um consumidor regular exige uma adaptação da oferta à procura, apelando a lugares disponíveis e a horários ajustados. Do outro lado estão as empresas fornecedoras do serviço, públicas ou privadas, que cada vez mais procuram encontrar novas estratégias em que aliem a melhoria do nível de serviço ao aumento de eficiência e rentabilidade. Pretendem afastar-se das medidas tradicionais que implicam normalmente custos elevados, seja em recursos humanos, energia, reabilitação ou, no limite, novos veículos.

 

Acreditamos que a solução deve passar por uma afetação das rotas flexível e continuamente ajustada às necessidades da procura, garantindo a correta alocação dos recursos, satisfazendo as necessidades e expetativas dos passageiros e potenciando melhores resultados para as empresas. Este conceito deve criar um aumento de eficiência do meio de transporte, com menor tempo de paragem e maior tempo em deslocação efetiva – já que é nesta última atividade que se encontra o real valor para o utilizador. Em paralelo, devem ser tomadas outras medidas para o nivelamento da procura, nomeadamente através da bilhética (bilhetes unitários e passes). Isto é possível, por exemplo, com a oferta de diferentes opções para diferentes janelas horárias de utilização, com preços mais convidativos para deslocações fora das horas de ponta, sendo assim gerada uma natural diluição dos picos de passageiros ao longo do dia. Neste caso, sublinhamos a importância de uma estratégia de comunicação eficaz junto da população.

 

Reconhecemos que existe um grande desafio para habitantes, trabalhadores, visitantes e empresas. A solução passa por procurar criar um fluxo de passageiros contínuo, gerando um elevado nível de serviço e um aumento de rentabilidade da rede que opera nesta área. Só assim é possível libertar as principais artérias rodoviárias de acesso às grandes cidades, evitando que continuem a ser diariamente entupidas devido ao excesso de utilização de viaturas próprias em detrimento de transportes coletivos. São este tipo de mudanças que capacitam as cidades, tornando-as mais competitivas para viver, trabalhar e investir.

 

Senior Partner do Kaizen Institute

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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