Roland Berger
Roland Berger 21 de dezembro de 2016 às 19:50

FinTechs: implicações para o sector financeiro

No rescaldo da Web Summit 2016, que trouxe a Portugal um grande número de empresas e investidores ligados ao sector tecnológico, importa reflectir sobre qual o papel que as FinTechs podem desempenhar nas economias modernas e o impacto que a sua oferta (muitas vezes disruptiva) pode ter nos modelos de negócio tradicionais.

Desde 2008, após a crise financeira, tem-se verificado um aumento significativo do número de FinTechs a nível global. Entre 2011 e 2015 o investimento global em FinTechs aumentou mais de 150%, atingindo um montante anual de $1,1 mil milhões - um claro sinal do elevado potencial de crescimento que o mercado reconhece neste segmento.

 

Estas start-ups têm vindo a afirmar-se com uma oferta de serviços inovadores ao nível de áreas como o "crowdfunding", o processamento de pagamentos ou até soluções de poupança. Tem sido notório o seu importante papel no desenvolvimento de soluções que, muitas vezes, respondem directamente a necessidades dos consumidores, que não são devidamente endereçadas pelos habituais intermediários financeiros. A maior afinidade digital dos consumidores (em especial, os "millennials") e a procura por processos mais simplificados, a par da crescente desconfiança da opinião pública face às instituições bancárias, são alguns dos principais factores que ajudam a explicar o sucesso das FinTechs.

 

Uma das principais áreas onde se observa um grande potencial de crescimento para as FinTechs são os serviços de pagamentos. Existe já uma grande apetência por parte dos consumidores para o recurso a serviços de pagamentos digitas e a entrada em vigor da nova directiva de pagamentos europeia (PSD2), prevista para 2018, deverá ser mais um importante estímulo, no que diz respeito ao aparecimento de novos players nesta área. A directiva alarga a possibilidade de oferecer serviços de pagamentos e de agregação de contas bancárias a operadores não financeiros, tornando aquilo que antes era apenas feito por bancos ao alcance de FinTechs e até mesmo empresas de retalho ou telecomunicações.

 

Adicionalmente, algumas FinTechs assumiram também um papel relevante no financiamento da economia, através da montagem de estruturas de "crowdfunding," criando um canal directo entre particulares com capital para investir e negócios a precisar de liquidez, sem a necessidade de qualquer intermediário financeiro.

 

A grande maioria das FinTechs opera em partes da cadeia de valor, com uma oferta muito específica, ao passo que os bancos apresentam uma oferta de serviços com uma enorme abrangência e têm um "know-how" aprofundado. Dadas estas características, existe um potencial de colaboração entre ambas as partes, como se verificou num estudo recente desenvolvido pela RB junto de centenas de FinTechs europeias, onde a esmagadora maioria (86%) assumiu que tencionava colaborar ou estabelecer parcerias com instituições financeiras tradicionais.

 

Embora possa haver uma cooperação entre ambas nalgumas áreas específicas, as instituições bancárias e as FinTechs têm caminhos diferentes a fazer. Os bancos enfrentam uma necessidade premente de reinventar o seu modelo de negócio com um especial enfoque no processo digital, uma vez que o novo paradigma em termos da oferta de serviços financeiros ameaça seriamente a sua sustentabilidade. Quanto às FinTechs, os desafios passam principalmente por um esforço de diferenciação da oferta e a preocupação em definir um modelo de negócio sustentável.

 

O futuro do sector financeiro depende, em grande parte, da forma como os vários intervenientes conseguirem endereçar os desafios que se colocam. Perguntamo-nos então: irão as FinTechs progressivamente ocupar o lugar dos bancos?

 

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