Rui Patrício
Rui Patrício 01 de janeiro de 2018 às 19:45

Flanando, em James Street

Já se sabe que Londres é a menos inglesa de todas as cidades inglesas. Fico num hotel em Marylebone, a minha zona favorita da minha cidade preferida, ao qual, para quem vem da Oxford Street, se acede pela James Street.

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Londres não é harmoniosa como Estocolmo, nem ambígua como Hong Kong, não é calorosa como a Cidade do Cabo, nem bela como Paris, não é aconchegante como Buenos Aires, nem misteriosa como Veneza. Mas tem tudo isso, e tem muito mais. E tem nela o mundo todo, de um jeito tão subtil que nem se dá por isso; Londres não é um mundo, é o mundo, todo ali ao virar da esquina. Talvez por isso a prefira a qualquer outra, não sei, as cidades são como os amores, nunca sabemos explicar bem o "porquê", só sabemos e sentimos o "quê". E a curtinha e desengraçada James Street é um pequeno exemplo de mundo, com os seus restaurantes. Aliás, no que toca a coisas humanas, o estômago é sempre um bom critério de aproximação e de compreensão. Em poucas centenas de metros, há, pelo menos, restaurantes franceses, espanhóis, italianos, sul-americanos e do oriente médio, e há, também, daqueles sítios que se encontram por todo o lado, de Santiago aos Urais, de Windhoek a Penang, aqueles sítios nivelados (neste caso por baixo, que também os há por cima, mais pompa menos pompa) pela globalização dos gostos em matéria de matar a fome. O que há pouco em James Street é "fish and chips", mas isso também não faz falta nenhuma.

 

Flano por ali, na cabeça nada de aturada geopolítica, nem de complexas política e economia, só olhos para observar e cabeça para pensar. Observar e pensar em coisas simples. Como, por exemplo, numa pergunta muito singela, já tantas vezes repetida e outras tantas carente de resposta satisfatória: como raio aconteceu o Brexit? Não foi certamente em James Street que o mesmo foi votado favoravelmente. Sim, James Street fica em Londres, e Londres, já sabemos, não é inglesa, e foi todo o Reino Unido que votou. Talvez o Reino Unido nunca tenha sido totalmente europeu, mesmo quando estava formalmente todo dentro da Comunidade e da União Europeias. Talvez nunca tenha vencido a nostalgia da glamorosa e poderosa "pax britannica". Talvez seja só isso, mais a força arreliadora de um canal mental secular. Se for só isso, não é assim tão mau, sobretudo agora que se começa a abrir mais os olhos e a colocar a palavra "suavidade" na agenda da separação.

 

Mas é capaz de ser mais, um sinal, um princípio, um forte sintoma do que virá. Demasiada falta de história, demasiado tempo sem trincheiras e rebentamentos, sem sirenes, fome e provações maiores, e o inelutável esbatimento da memória. E desconfiança, medo, superficialidade, falta de profundidade no discurso, moleza no pensamento, demagogia. Nada de geopolítica complicada, só mera observação em James Street, os cheiros de diferentes pratos a misturar-se, harmoniosamente, os diferentes sabores adivinhados, o mistério da diversidade. E toda aquela gente que ali trabalha e está - o mundo ali - vai para onde, depois? E quem os substitui? Apetece, ao flanar por ali, adotar ares de conselheiro matrimonial e dizer a todos os "brexits" que pensem bem antes da separação ou, pelo menos, que se separem muito, muito amigavelmente. Como disse António Lobo Antunes numa entrevista recente, estar sozinho tem os seus problemas, entre outros o de não saber bem o que fazer quando se tem alguma aflição, por exemplo, disse o escritor, uma diarreia. E a Europa e os seus países, por esses séculos fora, são campeões em fazer nas calças.

 

Advogado

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