Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 20 de junho de 2017 às 20:30

Fogo que arde sem se ver

O interior de Portugal não tem influência política suficiente para forçar a aprovação e implementação de políticas públicas. O seu abandono é um fogo que arde sem se ver, que num silêncio macabro nos vai lentamente destruindo a todos.

1. Até ao choque de Pedrógão Grande, o Portugal político e mediático andava maravilhado com o novo cosmopolitismo da pátria, entretido em discussões sobre uma proposta para controlar o alojamento local (um assunto extraterrestre para os habitantes da esmagadora maioria do nosso território) ou a localização da Agência Europeia de Medicamentos, que queremos que nos calhe na distribuição dos despojos do Brexit.

 

Este último debate tem sido elucidativo sobre a comunidade política que somos. Quer no Governo (que preparou a candidatura) quer no Parlamento (que aprovou um voto de saudação), quer ainda nos debates em que o país se empenhou, não lembrou a quase ninguém que as razões de solidariedade territorial europeia pelas quais Portugal acha que merece esta agência são exactamente as mesmas, à escala nacional, pelas quais a instalação da dita em Lisboa não deveria ser a solução óbvia, inevitável, única.

 

A atrapalhação do Governo quando confrontado com o erro - mentindo sobre a existência de estudos (que naturalmente não quis mostrar) e sobre ter feito "o máximo" para candidatar o Porto (quando depois acabou na patética revienga de efectivamente candidatar o Porto) - apenas sublinha o quanto o cérebro político e mediático do país está capturado pelo centralismo.

 

2. As mortes de Pedrógão hão-de se ter ficado a dever a um conjunto grande e intrincado de razões, nem todas previsíveis ou controláveis. Mas essas mortes ocorreram, também, porque Portugal é um país tragicamente enviesado em favor do litoral urbano, em que o território restante é uma armadilha para quem lá permanece.

 

As mortes não ocorreram na "floresta" - ocorreram num mato informe e abandonado, em terras nas quais a marcha da civilização é um longo recuo de um país deslumbrado com a modernidade das cidades, que foi menorizando cultural e intelectualmente o mundo rural (a sua economia, os seus hábitos, os seus valores, as suas preocupações) e permitindo que grande parte do interior se transformasse num sítio economicamente inviável. Esse Portugal é um país estrangeiro e exótico, ao qual só devotamos uma ternura etnográfica quando vemos o "Fátima", do João Canijo, ou o "Aquele Querido Mês de Agosto", do Miguel Gomes.

 

Não devemos ficar surpreendidos, portanto, se o que falhou for aquilo que sempre falhou. Não é só por a reacção à catástrofe dar mais votos do que o esforço recatado da prevenção. É também porque as políticas que captam a nossa atenção são sempre as que dizem respeito ao mundo urbano, por muito minoritários que sejam os seus beneficiários. E é para essas que todos os governos orientam a sua propaganda.

 

O interior de Portugal não tem influência política suficiente para forçar a aprovação e implementação de políticas públicas. O seu abandono é um fogo que arde sem se ver, que num silêncio macabro nos vai lentamente destruindo a todos.

 

3. O Presidente da República abordou este tema na sua comunicação de domingo, no Palácio de Belém. Foi um momento institucionalmente perfeito - no conteúdo, no tom, na oportunidade, na dignidade. Melhor do que quando, logo no sábado, assoberbado pela emoção dos operacionais, disse que todos haviam feito o possível para evitar a tragédia, contribuindo inadvertidamente para um ambiente pouco saudável de desresponsabilização.

 

Marcelo acha, e bem, que para um Presidente estar à altura das circunstâncias tem de estar próximo das circunstâncias. O problema é que, quando não doseia bem essa proximidade, é ele próprio que acaba vítima das circunstâncias.

 

Advogado

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comentários mais recentes
Bernardo Há 4 dias

Se o colunista viver no interior, o artigo entende-se. Se viver no litoral, é bom que pinte a cara de preto. Mas não acredito que viva no litoral; não depois de escrever isto.

5640533 Há 4 dias

Que tristeza!