Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 17 de agosto de 2017 às 19:54

Foi por isso que venci

"Nunca fui um talento. Fui sempre muito trabalhadora", comentou Inês Henriques ao sagrar-se campeã do mundo dos 50 quilómetros marcha, no domingo em Londres. Mas Inês Henriques não está só.

O senso comum conta histórias de atletas e profissionais excepcionais, os Ronaldos e Mozarts deste mundo, de génios nascidos para o que fazem. Mas a investigação científica indica outra realidade: não é conhecido nenhum caso de altíssima performance que tenha escapado a muitos e muitos anos de trabalho, exigente e focado em melhorar.

 

Ter jeito e gostar do que fazemos, evidentemente, ajuda. Treinamos mais, conseguimos bons resultados, motivamo-nos e praticamos mais ainda. Mas é só nesta última fase, quando praticamos mais do que os outros, quando continuamos a esforçar-nos além do bom, que as coisas excepcionais podem começar a acontecer.

 

Não é preciso ser-se "genial" para se ser o melhor do mundo, sugere o investigador Anders Ericsson na obra recente "Peak: Secrets from the New Science of Expertise". Pode mesmo ser vantajoso não ter vantagens à partida. Por exemplo, um estudo sobre xadrezistas de topo mundial concluiu que os melhores jogadores não são quem tem um QI - quociente de inteligência - mais elevado. Jogadores com QI medianos chegam às posições de topo e jogadores com QI elevados ficavam-se pelo meio da tabela. O facto é que muitos dos jogadores que não têm QI altos sentem que têm uma desvantagem e por isso esforçam-se mais, treinam mais horas, tentam inovar e acabam por vencer.

 

"Nunca fui um talento", disse Inês Henriques. Podia ter acrescentado, "foi por isso que venci." 

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mais votado Anónimo Há 1 semana

Ela teve talento desde sempre. O talento de treinar para melhorar, de saber adaptar-se e de não se deixar ir abaixo pelas adversidades, que todos e quaisquer uns se sujeitam a ter de enfrentar, ao longo dos anos. É um talento. Outros querem as medalhas de ouro por via dos anos de antiguidade, de um título ou apelido colado ao primeiro nome ou da bênção dos contribuintes extorquidos. Enfim... Parabéns à marchadora.

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JCG Há 1 semana

As palavras têm significados, cada qual tem o seu e é por isso que existem em cada língua milhares de palavras para traduzir as diversas situações ou necessidades de comunicação.
A arrogância dos últimos tempos, estrumada por uma escola que se tornou num parque de diversões, entre muitos outros, gerou um fenómeno que é do certos indivíduos quererem que certas palavras tenham o significado que eles lhes querem dar e não o seu significado natural que muitos vezes tais indivíduos desconhecem.
Talento traduz uma inclinação natural para desenvolver uma determinada actividade com alto nível de qualidade. É aquilo a que também se chama ter um dom. Tem talento quem consegue fazer certa coisa com menor esforço e muito melhor resultado que a maioria dos outros indivíduos. Mas o talento não é só aptidão física; envolve também uma dimensão intelectual.
Marchar 50 kms é essencialmente aptidão física, muito treino e enorme teimosia.
A moda do talento na gestão é conversa de papagaio.

Anónimo Há 1 semana

Andou anos a fio nos 5 km e nos 20 km marcha sem grande sucesso. Acabou por vencer os mundiais nos 50 km marcha porque para além do esforço, da paixão e da sua muito boa vontade, foi inteligente, flexível, resiliente e soube aproveitar as oportunidades, conhecer-se e adaptar-se adequadamente. Enormíssimo trabalho. Grande feito desta vencedora. Excelente lição de vida para muitos nas mais diversas áreas. Mais um bom resultado que demonstra a importância da gestão de recursos humanos nas organizações e da flexibilidade dos mercados, incluindo o de talentos ou laboral.

Anónimo Há 1 semana

Ela teve talento desde sempre. O talento de treinar para melhorar, de saber adaptar-se e de não se deixar ir abaixo pelas adversidades, que todos e quaisquer uns se sujeitam a ter de enfrentar, ao longo dos anos. É um talento. Outros querem as medalhas de ouro por via dos anos de antiguidade, de um título ou apelido colado ao primeiro nome ou da bênção dos contribuintes extorquidos. Enfim... Parabéns à marchadora.

Anónimo Há 1 semana

Ela teve talento desde sempre. O talento de treinar para melhorar e de não se deixar ir abaixo pelas adversidades, que todos e quaisquer uns se sujeitam a ter de enfrentar, ao longo dos anos. É um talento. Outros querem as medalhas por via dos anos de antiguidade, de um título colado ao nome ou da bênção dos contribuintes extorquidos. Enfim... Parabéns à marchadora.

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