João Borges de Assunção
João Borges de Assunção 26 de outubro de 2017 às 19:54

Formular problemas

As recentes tragédias dos incêndios florestais que vitimaram fatalmente mais de cem pessoas entre nós tornaram-se centrais no debate social e político.

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Li e ouvi todo o tipo de formulações do que seria o cerne do problema. Por vezes a própria formulação do problema revela a ideologia e preocupações do formulador. O papel da formulação ("framing" em inglês) de um problema no condicionamento da reflexão e proposta de solução são um dos exemplos de enviesamento cognitivo que está na base da chamada teoria de decisão comportamental. De que o prémio Nobel da Economia deste ano, Richard Thaler, é um dos principais expoentes.

 

Um dos meus colegas da Católica Lisbon, Daniel Fernandes, tem aliás um artigo sobre a importância dos horizontes temporais e da dificuldade das pessoas em tomar boas decisões financeiras, mesmo quando recebem formação sobre o assunto. O próprio Thaler já citou este trabalho na sua coluna do New York Times dizendo que os resultados sobre a possibilidade de a formação financeira ajudar as pessoas a tomar melhores decisões sobre o seu futuro não são muito encorajadores.

 

A dificuldade de as pessoas formularem bem os problemas estende-se claro está a comentadores, gestores e governantes.

 

Vejamos os vários tipos de formulações que têm sido apresentados sobre as tragédias dos incêndios deste ano.

 

Num tipo de formulação as tragédias ocorreram devido ao mau ordenamento florestal. Provavelmente há um fundo de verdade nesta formulação. A origem do problema seria assim a ausência de boa ordenação da floresta. Os defensores desta abordagem têm normalmente já a sua própria visão do que é um bom ordenamento florestal e usam as tragédias como retórica de defesa do seu ponto de vista da política florestal.

 

Um segundo tipo de formulação coloca como causa central das tragédias a singularidade das condições climáticas nos dias trágicos fatais. Claro que esta formulação é também verdadeira. Aqueles dois dias foram diferentes, em termos climáticos, de quase todos os dias anteriores.

 

As divergências para quem usa esta formulação surge nas consequências da mesma. Para uns, o Governo estaria livre de responsabilidades porque os dias foram singulares. Para outros, a responsabilidade de prevenção das populações obrigaria o Governo e a Proteção Civil a ter planos de contingência adequados para o potencial de gravidade dos dias em causa.

 

Uma terceira formulação coloca o enfoque em toda a singularidade da meteorologia que tivemos em Portugal neste ano de 2017. Assim, este ano mostraria que Portugal está a sofrer o resultado das alterações climáticas (potencialmente de origem humana). E assim, alguns dias muito atípicos, a existência singular do furacão Ophelia no Atlântico Oriental e a sua trajetória ao largo da costa portuguesa colocam as alterações climáticas como causa central das tragédias, mais na do fatídico domingo 15 de outubro do que na de Pedrógão Grande. Para quem formula o problema desta forma a tragédia cria um imperativo adicional na adoção de políticas de combate às alterações climáticas.

 

Há ainda outras explicações centradas na desertificação populacional do interior ou nas dificuldades da rentabilização da floresta ou da agricultura tradicional.

 

O Governo mostra-se naturalmente desorientado, e entre os seus apoiantes convivem as várias formulações e respetivas consequências de política. As responsabilidades diretas do Governo, que resultam da mudança generalizada de pessoas aparentemente por critérios de proximidade, amizade e filiação política, agravam a sensação de um Governo em permanente busca dos apoios necessários à sua sobrevivência quotidiana. E dificultam a reflexão séria e independente que deveria preceder a decisão.

 

Numa demonstração típica do efeito de "mental accounting", demonstrado experimentalmente por Thaler, o Governo coloca dinheiro em rubricas orçamentais que possam ser classificadas como "incêndios", "florestas" ou "desenvolvimento do interior". Será credível que decisões tomadas em menos de duas semanas num ambiente de permanente pressão mediática e interna estejam devidamente pensadas? A teoria de decisão comportamental sugere que não.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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