Carmen Reinhart
Carmen Reinhart 30 de Novembro de 2016 às 20:00

Fugir de Itália

Há uma inquietante sondagem em tempo real do sentimento dos investidores: a fuga de capitais de Itália acelerou este ano.

O referendo de Itália, a 4 de Dezembro, dará aos eleitores a oportunidade de aprovarem ou rejeitarem o que alguns já descreveram como as mais extensas reformas constitucionais do país desde a abolição da monarquia no final da Segunda Guerra Mundial. No entanto, pode ser o facto de os três partidos da oposição favorecerem a saída do euro o que explica por que o primeiro-ministro Matteo Renzi prometeu demitir-se se os eleitores rejeitarem as reformas.

 

Compreensivelmente, depois da vitória em Junho da campanha "Leave" no referendo do Brexit, no Reino Unido, e de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, ninguém tem muita fé nas sondagens de antecipação do referendo italiano. Há, no entanto, uma inquietante sondagem em tempo real do sentimento dos investidores: a fuga de capitais de Itália acelerou este ano.

 

Há um precedente recente para isso. No verão de 2015, o incumprimento da Grécia com o Fundo Monetário Internacional e a introdução de controlos de capital e restrições à retirada de depósitos estavam no centro do drama da Zona Euro. As tensões entre os governos grego e alemão foram grandes, e a especulação sobre se a Grécia permaneceria na Zona Euro aumentou.

 

O foco mudou agora para a muito maior economia italiana. No actual ambiente de incerteza, o prémio de risco das obrigações italianas aumentou para cerca de 200 pontos base em relação às bunds alemãs.

 

As condições económicas e políticas nas duas economias endividadas do sul da Europa diferem em aspectos importantes; mas também existem semelhanças. O crescimento económico em ambos os países tem ficado muito aquém do de outras economias avançadas há mais de uma década, mas mais acentuadamente desde a crise financeira global de 2008-2009. De acordo com estimativas do FMI, o rendimento real per capita em Itália está cerca de 12% abaixo do nível de 2007. Só a Grécia regista um pior desempenho.

 

O problema da insolvência bancária, endémico na Grécia, em que o crédito malparado representa mais de um terço dos activos dos bancos, não é tão generalizado em Itália. Ainda assim, a resolução incerta do terceiro maior banco de Itália, o Monte dei Paschi, juntamente com os recursos limitados do governo italiano para lidar com os bancos fracos, alimentou o mal-estar entre os depositantes. Os banqueiros também alertam que o plano de resgate do Monte dei Paschi pode ser comprometido pelo referendo de Dezembro, o que poderia desencadear outra ronda de declínios nos preços das acções.

 

Apesar de toda a conversa sobre uma iminente crise bancária, a crise da balança de pagamentos, já em curso em Itália desde o primeiro semestre de 2016, é o principal condicionador da sondagem em tempo real dos investidores. Antes da adopção do euro, uma posição insustentável da balança de pagamentos em Itália (tal como noutros países com as suas próprias moedas) normalmente levaria o banco central a aumentar as taxas de juro, tornando os activos financeiros nacionais mais atractivos para os investidores e travando a fuga de capitais. Com o Banco Central Europeu a definir a política monetária para a Zona Euro como um todo, esta já não é uma opção para o Banca d'Italia.

Os bancos centrais de países que enfrentam uma crise da sua moeda podem também decidir permitir uma depreciação e deixar os mercados traçarem o curso da taxa de câmbio, em vez de tentarem "defender" alguma paridade predeterminada. Esta também é uma opção obsoleta para Itália. Embora o euro possa flutuar livremente em relação a outras moedas, não há um euro "italiano" a depreciar face a um euro "alemão". Se o capital está a fluir para fora de Itália e para a Alemanha, não há margem para uma depreciação italiana, como teria ocorrido antes da moeda comum.

 

Os responsáveis políticos também introduziram, por vezes, controlos de capital para retardar, senão mesmo parar, a fuga de capitais durante uma crise da balanço de pagamentos. A Grécia e Chipre dentro da Zona Euro, e a Islândia fora dela, recorreram a esta opção em resposta à extrema pressão. Mas a livre circulação do capital financeiro dentro da Zona Euro é um princípio fundamental da concepção da moeda comum, e a Itália não está a ponto de a revogar, pelo menos por agora.

 

Se a subida dos juros, a depreciação ou a desvalorização da moeda e os controlos sobre os fluxos financeiros não forem opções viáveis, o que é que o banco central de um país pode fazer perante a aceleração da fuga de capitais? Se não fizer parte de uma união monetária, pode recorrer à intervenção no mercado para apoiar a sua moeda, usando e perdendo as suas reservas cambiais no processo. As enormes perdas de reservas da Arábia Saudita na sequência da queda dos preços do petróleo reflectem essa resposta política.

 

Dentro da Zona Euro, tais perdas de reservas são automáticas no âmbito do Target2, o sistema de liquidação por bruto em tempo real para o euro. Se um país estiver sem reservas, o seu banco central pede automaticamente emprestado para manter a posição intraeuro. Para um país que enfrenta uma fuga de capitais (como aconteceu várias vezes na periferia do euro desde 2008), isso implica um equilíbrio Target2 progressivamente mais negativo. Em Setembro (os dados mais recentes disponíveis), o défice Target2 de Itália estava acima de 20% do PIB - a sua pior leitura até agora. Segundo algumas definições, estas são perdas de reservas de nível de crise.

 

A experiência recente da Irlanda estabelece um precedente encorajador para inverter este tipo de espiral descendente. Para Itália, com o seu ambiente político profundamente dividido, a engenharia dessa inversão exigirá um enorme esforço político - e possivelmente uma grande dose de sorte.

 

Carmen Reinhart é professora de Sistema Financeiro Internacional na Kennedy School of Government da Universidade de Harvard.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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