Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 15 de fevereiro de 2018 às 10:14

Funções e vocações

Os que têm vocação política não têm ilusões sobre a natureza humana e não desviam a atenção quando encontram os sinais da criminalidade, não ficam à espera das provas - actuam para evitar o crime.

A FRASE...

 

"A criminalidade chique, de colarinho branco, dos negócios escuros e dos montantes colossais, é tão sofisticada que, em muitos casos, jamais serão descobertos os grandes criminosos."

 

António Barreto, Diário de Notícias, 4 de Fevereiro de 2018

 

A ANÁLISE...

 

Muitos consideram que a política é uma profissão, em que se ocupam lugares dentro de planos de carreiras, que dão direito a uma remuneração e à acumulação de direitos, até mesmo a uma reforma. Pode haver uma candidatura a esses lugares com a apresentação de programas de acção sujeitos a uma validação eleitoral, ou podem esses lugares ser atingidos dentro de uma rede de influências e protecções, em que a legitimidade está associada aos serviços a prestar a esses influentes e protectores. Nestes casos da política como profissão, não há nenhuma obrigação de denunciar as impossibilidades ou de revelar os enriquecimentos sem causa. Invoca-se a separação de poderes, proclama-se que à política o que é da política e à justiça o que é da justiça, e é esta separação de campos que legitima o silêncio dos ingénuos - se a justiça não condenou, a política não tem de se intrometer no que são esferas privadas.

 

Há quem saiba que a política é uma vocação, é uma responsabilidade que se assume para tudo fazer de modo que a sociedade possa evoluir dentro de uma linha de possibilidade, corrigindo a formação de desequilíbrios que possam entrar em processo cumulativo, agravando-se mutuamente. Para quem a política é uma vocação, não há separação de campos entre a política e a justiça, não há áreas protegidas porque são assuntos e práticas da esfera privada, não se fica à espera da condenação em tribunal para corrigir o que conduz à impossibilidade. O político responsável não fica à espera de provas, interpreta os sinais e actua preventivamente, para que não tenha de ser confrontado com as provas, porque então estas já serão factos consumados. Os que têm vocação política não têm ilusões sobre a natureza humana e não desviam a atenção quando encontram os sinais da criminalidade, não ficam à espera das provas - actuam para evitar o crime.

 

Não há criminalidade chique nem sofisticada, há políticos de profissão que não têm vocação.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
Alentejano 16.03.2018

é bonito de dizer mas os políticos de vocação não passam da presidência da junta nesta arquitectura politica que temos onde os partidos tem mais influencia que as pessoas que o compõem! A lealdado é mais importante que a honestidade e aos nossos tudo se perdoa aos outros tudo se insinua e insîdua.

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