Leonel Moura
Leonel Moura 09 de fevereiro de 2017 às 20:57

Futuristas precisam-se 

Os portugueses não se interessam pelo futuro. No entanto, são as visões do futuro que determinam as vidas do presente. Estamos numa era que depende totalmente de tecnologias altamente evolutivas.

Pense-se na quantidade de coisas que mudaram num curto período de tempo, nos "upgrades" que tivemos de fazer, nos novos equipamentos e "gadgets" que fomos obrigados a comprar para substituir outros que ficaram obsoletos em meses. Pense-se nos milhares e milhares de pessoas e empresas que, por todo o mundo, se dedicam a pensar como será o futuro e como fazer parte dele. Nem que seja para nos vender mais um produto efémero.

 

Mesmo assim os portugueses não se interessam. Alheiam-se. Talvez porque a maioria adore tradições, enchidos e velharias. Imagino que lhes dê uma sensação de segurança. Ainda que não exista nada mais inseguro do que pensar velho. Desfoca, dificulta o entendimento da realidade, impede a participação.

 

Diz-se que o atavismo lusitano se deve ao meme da saudade que supostamente marca a nossa cultura, gente e essa música intragável que agora é património mundial. Não me parece. Saudosista é alguém que, contra toda a evidência, acha que antigamente é que era bom. O desinteresse dos portugueses pelo futuro não tem que ver com isso. Não está num querer olhar para trás, mas numa forma particular de cegueira, de não querer ver, de meter a cabeça na areia, ao contrário das avestruzes que não o fazem.

 

 Só isso justifica que o povo português tenha aguentado 50 anos de ditadura fascista e ainda recentemente um Governo que, diga-se, nunca enganou ninguém na sua vontade de empobrecer a maioria dos portugueses. A redução brutal de salários e pensões, as imposições tremendas da troika, fizeram-se sem grande alarido, naquilo que muitos consideram os nossos brandos costumes e os franceses descrevem com a expressão "Les Portugais sont toujours gais"!,  mas na verdade se deve a pura passividade, não querer ver e enfrentar a realidade.

 

É por isso que os portugueses não se interessam pelo futuro. Dá trabalho, é preciso estudar, pensar, ponderar. É sobretudo preciso encarar de frente, com ousadia, ambição, atitude que por cá se detesta.

 

Acrescente-se que o futuro promete muitas coisas extraordinárias, mas também mete muito medo. O potencial de desastre e distopia é efetivamente considerável. São as guerras e o terrorismo tecnológico, as invenções que destroem modos de vida, as manipulações genéticas e tanta coisa que desconhecemos.

 

Adiante. Não pensar no futuro significa que outros o pensam por nós. E esse é um problema típico dos portugueses. Preferem seguir a serem pioneiros. Já o fomos no tempo das Descobertas, quando mesmo sendo poucos éramos destemidos, mas hoje, sabemos que já não é assim. A resistência ao novo e à inovação, o medo de arriscar, a ideia de que talvez não suceda nada, de que há muito tempo, estão embebidas na mentalidade dos decisores. Por isso, não fazer nada surge sempre como uma solução aparentemente melhor do que fazer alguma coisa.

 

Há muitos anos que escrevo e dou conferências sobre o futuro. Os sorrisinhos de um momento transformam-se, anos mais tarde, em afirmações apresentadas como originais. Muitas pessoas que, num primeiro momento, negaram um qualquer  do desenvolvimento tecnológico surgem depois como os seus maiores promotores e tentam ganhar alguma coisa com isso. É a vida. Mas não deixa de ser extraordinário que continuam a reagir sempre da mesma forma. Fazem troça hoje para aplaudir amanhã.

 

Artista Plástico

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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