Rui Neves
Garganta a mais, Governo a menos?
15 Maio 2012, 23:30 por Rui Neves | ruineves@negocios.pt
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Os Senhores dos Anéis não brincam em serviço. "Tirem as patas de cima", proclamam, nos bastidores, angolanos e chineses. E nós obedecemos. Entregues as jóias, os dedos ficam a abanar. Sem estratégia, sem dinheiro e sem orgulho, vamos perdendo a nossa identidade.
Os Senhores dos Anéis não brincam em serviço. "Tirem as patas de cima", proclamam, nos bastidores, angolanos e chineses. E nós obedecemos. Entregues as jóias, os dedos ficam a abanar. Sem estratégia, sem dinheiro e sem orgulho, vamos perdendo a nossa identidade. Mas há limites a partir dos quais Portugal deixa de ser Portugal. Responsáveis pelo estado económico-financeiro a que este País chegou, não podemos – não devemos – deixar para os nossos filhos a mais pesada das heranças: um território ferido de morte.

Tanta conversa para quê? Vamos ao ponto: segundo a edição de ontem do "Público", o Comité do Património da UNESCO vai exigir, no final do próximo mês, a paragem imediata das obras de construção da Barragem de Foz Tua, solicitar uma missão conjunta de análise à situação da área de paisagem classificada do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial e remeter um relatório até ao final de Janeiro próximo. Alerta vermelho: em regra, todas as propostas são aprovadas.

A construção da obra tem um "impacto irreversível e ameaça os valores" que determinaram a classificação do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial, considera a UNESCO, que acusa as autoridades portuguesas de deslealdade, pois "o projecto da barragem – embora previsto no Plano Energético Nacional de 1989 e no Plano de Bacia Hidrográfica do Douro de 1999 – nunca foi mencionado no dossiê de candidatura". Ou seja, também nesta matéria, os sucessivos governos foram garotos: omitiram ou esconderam os problemas, deixando para os vindouros a resolução dos mesmos.

Curiosamente, a chefe da Estrutura de Missão do Douro, que devia ter como missão primeira "manter o valor" que levou à classificação de Património Mundial tão extraordinária paisagem vitícola, mostra-se agora "muito preocupada" com a posição da UNESCO. Mas logo acrescentou que o Douro Vinhateiro "não é nenhum fóssil", acreditando "que é possível compatibilizar as coisas". Mais valia estar calada. O tempo das compatibilizações já passou. Não foi a UNESCO que reconheceu, por decreto universal, o reconhecimento desta paisagem como Património da Humanidade – fomos nós que solicitámos tão distinta classificação, pelo que só temos que cumprir as regras.

É claro que o Estado está numa péssima situação para decidir pela paragem das obras. Por todas as razões financeiras e mais uma: o poder na EDP agora fala mandarim. E, não tenhamos dúvidas, a China Three Gorges está-se nas tintas para o Douro Vinhateiro. Lembre-se que esta empresa foi fundada pelo governo chinês para construir e gerir o maior complexo hidroeléctrico do mundo – a barragem das Três Gargantas, no rio Yangtze, tendo retirado do local 1,3 milhões de pessoas e deixado debaixo de água uma gigantesca paleta de sítios de interesse arqueológico. Isto só foi possível, só deverá ser possível fazer, num regime ditatorial. Mas aqui ainda se vive em democracia. Portuguesa, pois então. Será que o Governo é Governo só de garganta?


* Coordenador do Negócios Porto

Visto por dentro é um espaço de opinião de jornalistas do Negócios

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