Leonel Moura
Leonel Moura 20 de Outubro de 2016 às 20:05

Geringonça 2.0

Não se entende como em países com um salário mínimo de 1.500 euros as empresas dão lucro e por cá os patrões digam que não aguentam um aumento para 550.

A direita não perde uma oportunidade para afirmar que continuamos em austeridade. "À la esquerda", como gosta de dizer Assunção Cristas. Não se entende o argumento. Estamos a falar dos mesmos partidos, PSD e CDS, que aplicaram a austeridade quando foram Governo e a queriam prolongar caso vencessem as eleições. Para a direita, a austeridade é coisa boa. O empobrecimento é uma solução para o país. A crítica não faz por isso sentido. A menos que se refira ao "tipo" de austeridade. Ou seja, à la esquerda tira-se alguma coisa aos ricos para dar aos pobres, à la direita tira-se aos pobres para dar aos ricos. Deve ser isso.

 

É certo que continuamos com níveis de pobreza intoleráveis, uma economia débil, pouco investimento, fraco crescimento. O que se justifica de muita maneira e desde logo com a incompetência das nossas elites, empresários e políticos por junto. Não se entende como em países com um salário mínimo de 1.500 euros as empresas dão lucro e por cá os patrões digam que não aguentam um aumento para 550. Essa incapacidade é demonstrativa do atraso do mundo empresarial.

 

Mas, mais decisiva para a situação atual é a opção europeia de atacar os défices públicos de forma a salvar os prejuízos privados. Ainda recentemente, numa entrevista, o Presidente Obama afirmou que as políticas de austeridade estão na origem do fraco crescimento na Europa. Nos Estados Unidos, aplicou-se com sucesso a receita oposta, isto é, investimento público.

 

A incongruência da posição europeia está à vista nas consequências imediatas, não há aliás nenhum país europeu que esteja bem, nem a Alemanha, ainda mais numa perspetiva futura. A extraordinária evolução tecnológica das últimas décadas abre todos os dias novos e promissores campos por explorar. Com uma Europa estagnada, o grosso dos investimentos na inovação estão a ser feitos nos Estados Unidos e na Ásia. A Europa perdeu a corrida da internet, da robótica, da impressão 3D, dos carros elétricos, da inteligência artificial. O Velho Continente não lidera nenhuma revolução tecnológica. E, no entanto, temos excelentes cientistas, gente extremamente criativa, uma juventude com elevada formação. Faltam investidores.

 

O que não admira. As políticas europeias têm um outro efeito perverso que os afasta. Fala-se muito na necessidade de estabilidade e previsibilidade. Aliás, a direita ataca a atual solução governativa porque considera que esta é precária e não transmite segurança aos mercados. Contudo a grande fonte de insegurança e instabilidade é a própria Comissão Europeia e outras entidades comunitárias. Veja-se o caso das sanções. Vai haver, não vai, talvez, marca-se reunião para decidir, desmarca-se, um dia diz-se uma coisa, no seguinte o oposto. É possível imaginar maior incerteza? Acrescente-se que isto se passa para qualquer assunto. A irresponsabilidade impera na gestão europeia.

 

Num cenário tão hostil, pressionado por uma Europa política e economicamente retrógrada e, por outro lado, por um país empobrecido a solicitar mais e mais despesa, o Governo de António Costa tem conseguido um surpreendente equilíbrio. Impossível sem a posição solidária dos partidos à sua esquerda que têm dado uma notável lição social e política face a uma direita cada vez mais radical e destrutiva.

 

Acertadas as contas falta agora cumprir o futuro. Veremos se em 2017 a geringonça consegue ir além da reposição de rendimentos. Até porque sem um "upgrade" o acordo à esquerda arrisca a perder-se nas trapalhadas do dia a dia.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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mais votado Rui Alexandre Manso Rua Há 2 semanas

eu até te explicava, mas não estou para isso.....olha, tenta ser "patrão" e depois verificas na pele como é....... sim, porque tem que continuar a existir patrões, alguém tem que pagar o estado social-comuna em que vivemos!

comentários mais recentes
Joao Há 2 semanas

Que texto sem pé nem cabeça. Primeiramente pouquíssimos países tem salário mínimo de 1500 euros, e nestes onde é real, existe uma fuga de empregos enorme para países mais baratos (outsourcing).

Jorge Loureiro Há 2 semanas

Monte uma empresa e talvez entenda melhor.

Miguel Verissimo Há 2 semanas

Porque há países em que as gorduras do estado não comem 50% da riqueza, e dão folga ás empresas para distribuir dividendos!!!!

Mário Rui Martins Há 2 semanas

Este artigo é muito mau e incompreensível para quem entende um bocadinho de economia. As questões sobre as empresas darem lucro lá fora e não darem as de cá, é absurda e revela que o autor em causa é pouco entendido nas matérias que questiona. Mais um defensor do investimento público que já se viu não resultar pois não promove crescimento mas aumenta a divida. Não se aprende nada com a leitura deste artigo porque o que ele nos diz é que sem dinheiro não se consegue governar em condições, mas...não há.

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