Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 30 de agosto de 2017 às 22:15

Gerir valor

A gestão de uma instituição não pode assistir com passividade a todo e a qualquer "input" externo que desbarate valor dos seus acionistas e que ponha em causa a riqueza nacional e os interesses de Portugal.

Notícia da imprensa económica de anteontem:

"O banco central da Rússia vai resgatar o maior banco privado do país e oitavo maior em termos de volume de ativos, o Bank Otkritie, segundo noticia a agência Europa Press. A medida, que não deverá implicar perdas para os depositantes e detentores de dívida, deve-se aos problemas de liquidez do banco e visa que as operações continuem como normal.

 

O banco da Rússia irá, assim, passar a ser o maior acionista do Bank Otkritie, através de uma injeção de fundos públicos. (…) Este será o maior resgate de um banco privado russo desde a intervenção no Bank of Moscow, que aconteceu em 2011."

 

Está bem que a Rússia não faz parte do sistema da União Monetária, nem da Zona Euro, nem da União Europeia. Mas a questão não é só russa. A questão é saber qual foi o país, além de Portugal, mesmo na UE, que pôs em causa um dos seus principais bancos e principalmente o seu maior banco privado? Se há princípio que tem sido seguido pela generalidade dos Estados-membros da UE, principalmente pelos mais poderosos, é que não aceitam desbaratar a riqueza nacional por causa do projeto da União. Quando o projeto da União Europeia põe em causa os seus interesses nacionais, os seus interesses vitais, a sua riqueza, os seus ativos principais, o Estado em que isso esteja a acontecer reage e negoceia, não se preocupa especialmente em ser o melhor aluno, em ser cumpridor.

 

É evidente que estando à frente de um Estado poderoso é mais fácil bater o pé à UE do que sendo dirigente de um pequeno país como Portugal, com uma economia de pequena dimensão e muito dependente do exterior. Mas sabemos também como as exigências da UE nos têm vindo a fazer perder valor, valor que tanto tempo demorou a acumular.

 

A questão nacional é muito esta e muitas vezes somos nós portugueses, em comparação com outros países da Zona Euro, que, por exemplo, nas exigências que fazemos em relação às instituições do nosso sistema financeiro, concretamente ao sistema bancário, colocamos exigências, nomeadamente na contabilização de imparidades ou de crédito malparado, de um modo muito mais duro.

 

Faz impressão o modo como em Portugal se aceita, cada vez mais, essa perda de valor, resulte ela de deliberações de entidades exteriores, da espera de decisões que não chegam, nomeadamente de acionistas estrangeiros, ou de declarações desrespeitosas de entidades estrangeiras. Se algo devia promover a coesão nacional, a solidariedade entre todos, a unidade mesmo, era essa capacidade de defender o que é nacional. Por exemplo, na questão da Autoeuropa, em que não quero entrar, a propósito do trabalho ao sábado, não deixa de causar alguma impressão que perante essa componente hoje em dia tão importante da realidade económica nacional se estejam a verificar também agitações, contratempos, dificuldades que podem fazer perigar o futuro daquela unidade industrial no nosso país.

 

É que tudo vai ficando em causa e por isso mesmo é cada vez mais importante para os gestores dessas diferentes entidades terem a noção perfeita e a formação devida do que é a sua responsabilidade e do que são os seus deveres para assegurar a proteção do interesse nacional. Ser gestor sempre exigiu saber prever, mas hoje em dia exige especialmente, até porque, pela imprevisibilidade dos tempos, é cada vez mais difícil prever com exatidão. Mas quando se trata de contar com aquilo que é certo, é preciso também a um gestor dos tempos de hoje saber antecipar a comunicação adequada a cada tempo que se tem por certo ou a cada tempo que se prevê ou que se admite como possível. A gestão de uma instituição não pode assistir com passividade a todo e a qualquer "input" externo que desbarate valor dos seus acionistas e que ponha em causa a riqueza nacional e os interesses de Portugal.

 

Advogado

 

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico

A sua opinião4
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado JCG Há 3 semanas

Ó Sr Lopes, produziu aqui uma saraivada de tretas e conversa fiada. Inconsequente e imprecisa. Registar contabilisticamente uma imparidade excessiva num crédito bancário não implica necessariamente perda de igual montante. Se não se concretizar, haverá recuperação de lucros mais adiante. A menos que esse crédito seja vendido abaixo do valor efetivo a um operador abutre.

comentários mais recentes
Anónimo Há 3 semanas

Quer dizer que quem geriu mal o negócio, desbaratou o dinheiro de qualquer maneira é o coitadinho? Temos que compreender que há negócios que correm mal, mesmo com boas intenções, mas a maioria dos negócios que se andou a fazer durante anos emprestando dinheiro para negócios de altissimo risco é de irresponsáveis ou propositadamente para o gamanço. vejam o que aconteceu cá na banca publica , BES, BPN...., emprestou-se montes de dinheiro para comprar ações, para negócios de conveniências, amigalhaços, etc, etc,. e depois a UE é que tem a culpa?. Os emprestimos ruinosos deviam era de ser investigados e condenar todos os que originaram essa situação. Mas nos aqui em Portugal nem queremos saber quem foram os que fizeram estes empréstimos ruinosos, Quem? aqueles que se arvoram em muito sérios. A UE devia era de obrigar a responsabilizar os culpados e não obrigar a dar as coisas por tuta e meia. como fizeram no Banif.

Anónimo Há 3 semanas

Ninguém, seja da Comissão Europeia, do FMI, da OCDE ou de qualquer um dos governos das economias mais avançadas do mundo como as escandinavas, do Reino Unido, da Oceania ou coreana, querem mudar o mundo. Porque o mundo já mudou e o que existe é quem não saiba ou queira aperceber-se disso mesmo.

Anónimo Há 3 semanas

Ai o "operador" que compra o crédito em incumprimento é que é o "abutre"? Não é o gestor bancário corrupto que concedeu o crédito?

JCG Há 3 semanas

Ó Sr Lopes, produziu aqui uma saraivada de tretas e conversa fiada. Inconsequente e imprecisa. Registar contabilisticamente uma imparidade excessiva num crédito bancário não implica necessariamente perda de igual montante. Se não se concretizar, haverá recuperação de lucros mais adiante. A menos que esse crédito seja vendido abaixo do valor efetivo a um operador abutre.