Anabel González
Anabel González 07 de novembro de 2017 às 14:00

Globalização para todos

Em vez de se sentarem ociosamente à espera da tempestade, os responsáveis políticos e os académicos estão a melhorar a compreensão do comércio e da tecnologia e a focar-se em formas de ajudar aqueles que perderam os benefícios.

Um resultado positivo das tensões comerciais dos últimos anos é um interesse renovado em entender como é que o comércio funciona realmente, em termos de ganhos agregados, efeitos distributivos, custos de ajustamento e outros factores. Os governos estão cada vez mais à procura de formas de mitigar os efeitos negativos do comércio através de políticas do mercado de trabalho e intervenções mais amplas, e os académicos estão a gerar uma nova riqueza de conhecimento que poderia fazer a globalização funcionar para todos, caso se resolvessem os riscos significativos que estão à espreita, no que respeita à política comercial.

 

Pegando no título de um filme australiano de 1982, 2017 será provavelmente lembrado como o ano de todos os perigos ("The Year of Living Dangerously"), pelo menos em termos de globalização. As políticas comerciais em todo o mundo estão sob um intenso escrutínio, e o sistema de comércio aberto, baseado em regras, está a ser ameaçado por pressões proteccionistas em países avançados importantes. Não sabemos como vai ficar o sistema internacional, mas é certo que nada será como antes.

 

Para contornar a incerteza de hoje, é útil analisar as dinâmicas do comércio "por detrás das manchetes", que foi o tema do Fórum de 2017 da Organização Mundial do Comércio. Não obstante a retórica populista, existem fortes evidências que sugerem que o comércio melhora os rendimentos e os padrões de vida, aumentando a produtividade e reduzindo os preços para empresas e consumidores. E isso acontece tanto nas economias emergentes como nas economias avançadas.

 

O comércio é claramente um motor chave que impulsiona o crescimento económico global e os esforços para acabar com a pobreza. Além disso, é amplamente reconhecido que o comércio poderia contribuir ainda mais para o crescimento. Os governos só precisam de remover os obstáculos nos sectores tradicionais, como a agricultura, e actualizar os seus quadros de políticas para enquadrar novos sectores como o comércio electrónico.

 

A forma como essa liberalização do comércio afecta o emprego e os salários - uma questão que surgiu nos últimos anos - é o tema do relatório sobre o comercial mundial de 2017, publicado recentemente pela Organização Mundial do Comércio. O relatório conclui que o comércio mais aberto tende a aumentar os salários e a taxa de emprego, mas que nem todos os trabalhadores são beneficiados. A forma como os ganhos são partilhados depende em grande parte das características regionais e das diferenças individuais entre os trabalhadores.

 

Isso faz eco das descobertas do relatório "Making Trade a Engine of Growth for All", publicado conjuntamente pelo Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio no início deste ano. Como conclui esse relatório, a realização do pleno potencial do comércio exige políticas domésticas para melhorar competências e educação, reduzir as fricções intra-nacionais e mitigar os custos dos ajustamentos económicos.

 

A inovação tecnológica é ainda mais importante do que o comércio na condução do crescimento económico. Mas, apesar dos benefícios óbvios da robotização, da inteligência artificial (IA) e de outros desenvolvimentos tecnológicos, há uma crescente preocupação com o impacto de tais inovações nos empregos.

 

No entanto, de acordo com o novo relatório da OMC, estudos empíricos descobriram que, com poucas excepções relevantes, as mudanças tecnológicas não reduzem substancialmente a procura agregada de mão-de-obra e o emprego. Em países desenvolvidos e em desenvolvimento, o impacto mais óbvio das mudanças tecnológicas não é no nível de emprego, mas nos tipos de empregos e competências que se procuram.  

 

Noutro relatório recente, Trouble in the Making? The Future of Manufacturing-Led Development, os colegas do Banco Mundial, Mary Hallward-Driemeier e Gaurav Nayyar, argumentam que as empresas e os trabalhadores dos países em desenvolvimento precisam de estar mais bem posicionados para aproveitar as oportunidades associadas às novas tecnologias e padrões da globalização. Com esse objectivo, devem perseguir políticas para melhorar a competitividade, as capacidades existentes e a conectividade.

 

No ambiente actual, é refrescante ver um foco renovado nas formas de expandir os benefícios do comércio. Globalmente, está a surgir uma agenda comercial mais inclusiva, com o objectivo central de fomentar o empreendedorismo das mulheres e a participação no comércio internacional. A esperança agora é que, explorando as tecnologias digitais e abordando os desafios específicos relacionados com o género, possamos incluir cada vez mais mulheres.

 

Além disso, podemos e devemos fazer mais para apoiar pequenas e médias empresas que estão a tentar ter lugar nas cadeias de valor globais e no comércio electrónico. E a comunidade internacional precisa de aumentar os seus esforços para trazer mais investimento privado para países de baixo rendimento, para que consigam integrar-se de forma mais plena na economia global.

 

Há nuvens no horizonte, sob a forma de decisões políticas que podem reverter três décadas de progresso na globalização. Mas essas nuvens têm o seu lado bom. Em vez de se sentarem ociosamente à espera da tempestade, os responsáveis políticos e os académicos estão a melhorar a compreensão do comércio e da tecnologia e a focar-se em formas de ajudar aqueles que perderam os benefícios. Quando esses esforços começarem a dar frutos, podemos fazer a globalização funcionar novamente - para todos.

 

Anabel González é directora do Trade & Competitiveness Global Practice do Banco Mundial.   

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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