Augusto Moita de Deus
Augusto Moita de Deus 07 de novembro de 2017 às 22:36

Grandes coisas têm pequenos começos

O que aconteceria se se facilitasse o acesso ao "venture capital" e se se reforçassem os apoios do Estado, numa aposta estratégica em nanotecnologia? Grandes coisas têm pequenos começos. O limite é o átomo.

Decorreu no mês passado em Braga um encontro sobre nanotecnologia, o INL Summit. Esta semana, temos em Lisboa o Web Summit. Entre os dois eventos há uma enorme diferença de escala. Um teve 500 participantes. O outro terá 60.000. Um foi organizado pelo Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia com o apoio do município. O outro é prioridade do Governo português. Um teve atenção do sector. O outro estará no centro da agenda mediática. Um focou uma tecnologia do futuro. O outro baseia-se numa tecnologia com 30 anos de idade.

 

Nada contra o Web Summit, muito pelo contrário. Mas é de notar que 1/100 das pessoas que estarão no Web Summit estiveram no INL Summit a discutir tecnologias com um potencial impacto a longo prazo digamos que 100 vezes superior para Portugal. O Web Summit é óptimo para a imagem do país e vai atrair investimento. Mas vamos ter nele pessoas de todo o mundo a promover os seus negócios, nos seus próprios países. Por outro lado, iniciativas como o INL Summit podem servir como catalisadores de uma nova estratégia de desenvolvimento nacional.

 

Mas há potencial? Conforme salientado no tema do INL Summit deste ano ("Nanotechnology: The New Economy"), a nanotecnologia será uma das bases da economia do futuro. Aliás, já do presente também. O seu impacto situa-se na ordem dos 450 mil milhões de dólares, mais do dobro do PIB nacional. Alguns indicadores industriais nesta área têm taxas de crescimento com dois dígitos. E ainda agora esta tecnologia está a começar.

 

A que pode um país como Portugal aspirar? A nossa dimensão não permite competir em tecnologias cujo tiro de partida foi dado há 30 ou 50 anos. Mas a existência de centros de excelência como o INL, o CENIMAT/I3N, o CICECO ou o INESC mostra que é possível ser inovador em áreas emergentes. E começar pequeno pode não ser impedimento: é sabido que a origem de Silicon Valley pode ser associada a uma única empresa, a Shockley Semiconductor. Um pequeno começo que gerou a era digital em que vivemos e que aliás está na base do Web Summit.

 

As potências tecnológicas estão a investir na nanotecnologia em domínios como a saúde, dispositivos de pequenas dimensões, ou materiais avançados. Irá Portugal ainda a tempo? Há institutos de excelência, há pessoas qualificadas, falta a aposta. O que aconteceria se se facilitasse o acesso ao "venture capital" e se se reforçassem os apoios do Estado, numa aposta estratégica em nanotecnologia?

 

Grandes coisas têm pequenos começos. O limite é o átomo.

 

Professor do Instituto Superior Técnico

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