Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 27 de novembro de 2017 às 19:59

Há aqui um padrão

Reagindo à oposição, que criticava a errática decisão de transferir o Infarmed para o Porto, o primeiro-ministro disse que a mudança já estava prevista, até para trazer a Agência Europeia do Medicamento.

Mas isso não estava na candidatura portuguesa, que refere que a sede do Infarmed permanece em Lisboa. O primeiro-ministro não disse a verdade.

 

Reagindo à oposição, que apontava os efeitos negativos das cativações na área da saúde, nomeadamente na própria prestação de serviços de saúde, o primeiro-ministro disse que aí não existiam cativações. Mas essa afirmação foi desmentida pela Conta Geral do Estado, que evidenciou cativações na saúde à volta dos 80 milhões de euros. O primeiro-ministro não disse a verdade.

 

Reagindo à oposição, que denunciava a degradação do serviço prestado pelos transportes públicos, o primeiro-ministro acusou o governo anterior de ter deixado, com as suas políticas, que o Metro e a Carris tivessem perdido 100 milhões de passageiros entre 2011 e 2015. Mas esses números não têm qualquer sustentação, uma vez que o número de passageiros perdido foi menos de metade desse. O primeiro-ministro não disse a verdade.

 

Reagindo à oposição, que exigia a baixa do imposto sobre produtos petrolíferos (ISP), cumprindo o compromisso assumido de o baixar em revisão trimestral quando deixasse de haver necessidade de compensar a perda de IVA cobrado nos combustíveis, o primeiro-ministro disse que a revisão trimestral era só uma medida transitória até à introdução do combustível profissional. Mas essa tese nunca tinha sido anunciada. O primeiro-ministro não disse a verdade.

 

Reagindo à oposição, que criticava os erros de coordenação da Proteção Civil no combate aos fogos, o primeiro-ministro disse que o anterior primeiro-ministro todos os dias criticava os bombeiros. Mas essa acusação não encontra qualquer sustentação ou demonstração, uma vez que nenhuma declaração de Passos Coelho se encontra crítica aos bombeiros. O primeiro-ministro não disse a verdade.

 

Reagindo à oposição, que criticava o desinvestimento público, o primeiro-ministro, justificando o desinvestimento com os problemas de execução dos fundos comunitários da responsabilidade do ex-ministro Poiares Maduro, disse que o processo de transição do Portugal 2020 teve tantos problemas que o secretário de Estado do Desenvolvimento Regional chegou a ser substituído. Mas o secretário de Estado do Desenvolvimento Regional durante os dois anos e meio em que Poiares Maduro foi ministro foi sempre o mesmo. O primeiro-ministro não disse a verdade.

 

Reagindo à oposição, que acusava o Governo de ter acordado com António Domingues uma exceção ao estatuto do gestor público para que este ficasse desobrigado de apresentar as suas declarações de rendimentos, o primeiro-ministro negou tal acordo, garantindo ter ficado claro que os gestores da Caixa Geral de Depósitos estavam obrigados a apresentar as declarações. Mas essa refutação veio a provar-se infundada, já que várias foram as manifestações do Governo nesse sentido. O primeiro-ministro não disse a verdade.

 

Reagindo a uma pergunta do PCP sobre a PT, o primeiro-ministro na quarta-feira manifestou-se apreensivo com o futuro da empresa, acusando o governo anterior de a ter privatizado de forma irresponsável pelo anterior governo. Mas a PT não foi privatizada pelo anterior governo, que se limitou a cumprir a medida que estava no memorando de entendimento, assinado por José Sócrates, de eliminar a "golden share" que o Estado detinha na PT. O primeiro-ministro não disse a verdade.

 

É impossível não ver aqui um padrão.

 

Advogado

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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