Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 19 de junho de 2017 às 21:05

Há uma diferença entre não saber e não querer saber

Há uma enorme diferença entre não saber e não querer saber. E nestes dias em que nos confrontamos com uma tragédia avassaladora, na qual morreram dezenas de pessoas e centenas delas ficaram sem chão e sem teto, há quem queira confundir as duas coisas.

Mas não são comparáveis.

 

Nestes primeiros tempos, de combate, reação, socorro, luto, as prioridades são claras: fazer tudo para terminar com a catástrofe, para mitigar o sofrimento, para começar a reconstrução. E nesse esforço, para o qual confluíram milhares de pessoas, generosas, voluntárias, disponíveis, nem sempre sobra tempo para saber o que se passou, para saber o porquê. Há uma urgência na ajuda que nos convoca para a ação, para a reação imediata.

 

Mas isso não significa que não se queira, que não se precise, de saber o porquê. A solidariedade instantânea, urgente, necessária, não é incompatível com a vontade de querer impedir que tudo isto volte a repetir-se. Pelo contrário, a morte destas pessoas, a sua desgraça, o horror por que estas pessoas passaram, obriga-nos, ao mesmo tempo, ou logo a seguir, mas obriga-nos, a querer saber como é que isto foi possível.

 

Querer saber é, por isso, e desde logo, um dos primeiros sinais de respeito pelo inimaginável sofrimento causado por esta catástrofe. Não é possível dizer-lhes, assim, sem mais, sem uma única averiguação, que nada falhou. Como se pode dizer que nada falhou quando ainda não tinha sido sequer possível perceber a magnitude do que se passou? Como dizer que a resposta foi a melhor possível quando esta ainda estava a decorrer? Como dizer que não houve falhas quando ainda estamos focados, e bem, muito bem, em tentar terminar com a catástrofe e o horror? Isso é o mesmo que não querer saber, inadmissível do meu ponto de vista: o Estado não pode, perante o que se passou, e sem uma análise rigorosa, oportuna, dizer que nada falhou.

 

Não, eu não quero culpar o Governo; não, eu não quero que rolem cabeças; não, eu não quero encontrar um bode expiatório, tudo coisas simples, exorcizantes, mas inconsequentes. O que eu quero, e não vou sentir-me mal por isto, nem menos humano, nem menos solidário, é perceber onde falhámos para que não voltemos a falhar. Porque vamos voltar a falhar, como falhamos todos os anos, e no próximo ano, ou da próxima vez, vamos carregar mais um peso: o peso de não ter querido saber.

 

E encontrar as falhas não significa, nem poderia, negar a origem natural ou inevitável de um fogo. Era o que mais faltava. Encontrar falhas significa perceber onde falhou a nossa prevenção, sim, mas também a gestão da crise, a reação a ela. Fizemos tudo como deveria ter sido feito? De certeza? Não falhou nada? Não abandonámos aquele interior? E se fizemos tudo certo, e o resultado foi o que foi, o que podemos passar a fazer de diferente, para que fazer tudo certo passe a ser fazer melhor? Concluir que algo pode ou deve mudar não é passo prévio nem necessário para demitir ou responsabilizar alguém, pelo menos na minha cabeça. É apenas o passo necessário para evitar que volte a suceder. É uma mostra de maturidade.

 

Reforço, este artigo não é sobre o Governo, sobre política florestal, sobre ordenamento do território, sobre forças de segurança, sobre "é preciso que alguém se responsabilize". Não, este artigo é sobre a tese, que volta muitas vezes e é independente de contextos políticos, de que perante uma desgraça, um drama humano, o nosso respeito e solidariedade devem quedar-se pela ajuda, pelo luto. Não e não: como país, temos obrigação de mais. Sobretudo a isso nos obrigam aquelas vidas que se perderam. Cada uma delas.

Advogado

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

pub