Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 30 de janeiro de 2017 às 10:27

Há vida no fundo do poço

O buraco escuro e cavernoso em que se encontra mergulhado o mercado português não afastou todos os pequenos investidores.
"Lá em baixo ainda anda gente apesar de ser tão noite"
Sérgio Godinho

Continuo surpreendido pela quantidade de pessoas que se continuam a interessar pela Bolsa portuguesa, apesar de estar a cair há 3 anos e o PSI se encontrar a níveis de há 20 anos! O buraco escuro e cavernoso em que se encontra mergulhado o mercado português não afastou todos os pequenos investidores mesmo que, pelo caminho, tenha feito muitas vítimas que jamais quererão ouvir a palavra Bolsa nos próximos anos.

O PSI vale hoje cerca de um terço do que valia há 10 anos, um movimento brutal para um índice. Se, em 2007, me dissessem que a Bolsa portuguesa iria cair tanto, além de não acreditar, acharia que eu já não escreveria sobre mercados porque não haveria quem me quisesse ler.

Acompanho os mercados há cerca de 25 anos e a correlação entre o interesse pelos mercados e o desempenho da nossa Bolsa é evidente. Em 2000, no topo de um "Bull Market" fui capa de duas revistas económicas e em 2007, no topo do seguinte "Bull Market" tive 3 minutos de entrevista num "Jornal de Domingo" da TVI. Não o digo por orgulho mas apenas para demonstrar que, em momentos de euforia, todos querem ouvir falar sobre Bolsa e a Comunicação Social dá às pessoas o que elas querem ver.

Hoje, em 2017, os Telejornais não abrem com notícias de Bolsa, alguns jornais económicos fecharam e os fóruns de Bolsa têm menos participação do que há 10 anos. Mas, face ao péssimo desempenho da praça portuguesa, há mais interesse do que eu imaginaria e a esperança ainda não se desvaneceu por completo. Tal como eu tenho vindo a dizer, quando o pessimismo atinge valores extremos e ninguém acredita no mercado, as probabilidades de uma inversão são grandes.

Torna-se ainda mais frustrante para quem investe na Bolsa portuguesa ver o desempenho dos restantes mercados, numa altura em que os principais índices europeu andam próximos de máximos históricos e o icónico Dow Jones quebrou pela primeira vez os 20 mil pontos. Aliás, se há 10 anos me dissessem que o Dow triplicaria o seu valor e Donal Trump seria o presidente dos Estados Unidos, eu soltaria sonoras gargalhadas. Tudo muda muito depressa. Nos mercados e na vida.

Se formos a analisar a duração dos "Bear Markets" neste século em Portugal, o primeiro durou 2 anos e meio (2000-2002), o segundo durou quase 5 anos (2007-2012) e o actual completará em Abril o seu terceiro aniversário, embora aceite perfeitamente quem defenda que o período entre 2012 e 2014 tenha sido um mero ressalto num longo "Bear Market" que duraria há 10 anos. Embora compreenda esta tese, considero que uma subida de 2 anos com o índice a ganhar cerca de 70% é muito mais do que um mero ressalto.

Apesar de gostar de ver mais cepticismo no nosso mercado, vou sempre definindo os níveis que me farão despir este bolorento fato de urso que trago vestido há tanto tempo. O primeiro passo seria a ruptura, em alta, da zona de resistência entre os 4.800 e os 4.850 pontos. Há quase 2 anos que o PSI não dá um claro sinal de força e este seria o primeiro que poderia indiciar uma mudança nesta tendência descendente.

O gráfico de longo prazo que acompanha este artigo deixa-me nostálgico dos grandes momentos da Bolsa portuguesa. Deixa-me triste também por ver quanto dinheiro dos accionistas foi destruído. Mas a alguns deixará a esperança de um renascer.

"Apesar de ser tão noite", como canta Sérgio Godinho, ainda há resistentes que acreditam na nossa Bolsa. Tenho sido e continuo a ser um urso assumido mas, uma vida inteira dedicada aos mercados, faz-me saber que tudo muda muito rapidamente e irá haver um momento em que os dias de Sol voltarão à nossa Bolsa. Mais do que dias, serão anos. Consigamos nós não estar de olhos vendados para podermos ganhar dinheiro com isso.

A Bolsa portuguesa não fechou, embora por vezes pareça morta. Um dia as subidas chegarão. Infelizmente, alguns não chegarão com capital para aproveitar os dias gloriosos de um "Bull Market".

(comente aqui o artigo)



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