Edson Athayde
Edson Athayde 02 de janeiro de 2018 às 19:46

"Hang the DJ"

A expressão "verdade nua e crua" nunca é utilizada como metáfora para a beleza. Serve para lembrar que a verdade (no sentido de sinónimo para a "realidade") é normalmente feia e mal frequentada.

Na mitologia criada pela Disney, o Espelho Mágico ocupa um lugar especial.

 

Personagem dúbia, não é bom nem mau, é sincero. Sendo escravo da Rainha, sua tarefa é também ser escravo da verdade.

 

É a atuação do Espelho que incita todo o drama de Branca de Neve. Bastava ele mentir e dizer que a Rainha era a mais bonita e a vida de Branca seria poupada.

 

A expressão "verdade nua e crua" nunca é utilizada como metáfora para a beleza. Serve para lembrar que a verdade (no sentido de sinónimo para a "realidade") é normalmente feia e mal frequentada.

 

O Espelho Mágico dos nossos dias chama-se "Black Mirror", título de uma série de culto da Netflix que costuma estrear (como agora) novos episódios entre o Natal e o Ano Novo.

 

O "espelho negro" da série fixa-se em dizer que a vida digital que temos, no geral, e a forma como usamos as redes sociais, no específico, nos levarão de um hoje ruim para um depois de amanhã ainda pior.

 

Se trabalha em comunicação ou marketing e nunca viu ou pretende ver sequer um episódio de "Black Mirror", pode aproveitar o ano que começa agora para mudar de carreira. É sinal de que ainda não percebeu nada do que está a acontecer à sua volta.

 

Todas as histórias da série são independentes entre si; o que as une são a abordagem, o tom e o ritmo.

 

A atual temporada foi produzida no feminino. Todos os episódios têm protagonistas mulheres. Nalgum deles, esse olhar é mesmo fundamental para a formulação da crítica à atualidade.

 

Foco no capítulo intitulado "Hang the DJ", que debate a construção dos relacionamentos amorosos (e a intervenção da tecnologia neles).

 

Uma espécie de Tinder musculado junta casais e determina quanto tempo eles terão de ficar numa relação (que pode ser de poucas horas ou de anos). A ideia não é que os participantes sejam perfeitos um para o outro à partida e sim que o software aprenda com os acertos e os erros. No fim, a promessa publicitária feita, haverá a escolha do par perfeito.

 

A dado momento, infeliz com as relações que teve, uma das personagens questiona o funcionamento da coisa. Outro contrapõe: seria muito pior se não houvesse uma inteligência artificial a decidir o rumo de tudo. Já imaginou um mundo onde os encontros e os desencontros fossem aleatórios?

 

A canção "Panic", dos Smiths, serve de epígrafe para a história no que toca aos seus versos em que incita o enforcamento do DJ por ele tocar só o que é sucesso sem levar em conta o que vivem e sentem os que estão na pista de dança.

 

Estamos todos na pista de dança.

 

O DJ ora é chamado de destino, noutras de Facebook, Google ou Match.com. Mas merece sempre ser linchado quando não nos entrega o que desejamos. O problema é que raramente sabemos o que realmente queremos.

 

E não há espelho mágico, negro ou digital, que resolva o tema.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo: "O futuro nada mais é do que o hoje com um pouco de rugas."

 

Publicitário e Storyteller

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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