João Costa Pinto
João Costa Pinto 20 de novembro de 2017 às 20:16

Incêndios – desafio de geração - (CVII)

Muitos proprietários de terras abandonadas ou com explorações deficientes e expostas ao risco de incêndio estarão hoje disponíveis para as alienar ou para ceder os respectivos direitos de exploração.

1. Como referi no último artigo, a destruição dos incêndios deste Verão teve um impacto profundo sobre um tecido económico e social já muito enfraquecido. Encontramo-nos agora perante um desafio de geração: como "pôr de pé" um programa de relançamento sustentado da actividade económica das regiões atingidas, de modo a recriar um modelo de desenvolvimento económico e social? O chamado "interior" não é homogéneo. Alguns centros urbanos resistiram e apresentam maior vitalidade económica e social. Com incentivos adequados podem transformar-se em pólos de irradiação de investimento, inovação e crescimento. A floresta deve, por outro lado, formar um vector central do modelo. Trata-se do recurso natural renovável mais importante da nossa economia. Constitui a segunda maior mancha florestal da Europa e cobre entre 40 a 50% do território da região centro - ou cobria antes dos incêndios. É assim crucial reorganizar estruturalmente a floresta e apoiar o desenvolvimento, em torno desta, de uma malha de sectores produtivos que, além de suportarem uma exploração florestal sustentada e economicamente rentável, podem dar um contributo único à criação de emprego e ao crescimento - além da produção de energia a partir da biomassa florestal, sectores como a produção de pasta, o imobiliário, o aquecimento e o turismo da natureza são exemplos.

 

2. Sabemos que um programa de acção sobre a floresta deve - além de assegurar uma exploração rentável - atender a dois tipos de preocupações: implantar manchas florestais mais resistentes à propagação dos fogos; preservar e contribuir para a reprodução de ecossistemas equilibrados. Existem entre nós os conhecimentos científicos e técnicos necessários à concepção de programas capazes de responder a estas preocupações. Há que os mobilizar e criar um quadro - organizativo, operacional, legal, administrativo e fiscal - capaz de, simultaneamente: impulsionar o aproveitamento das terras com vocação florestal; ultrapassar os fortes interesses instalados que - de forma mais ou menos velada - procuram bloquear a mudança.

 

O lançamento de um tal programa depende - além das medidas necessárias à criação do referido quadro - da disponibilidade de recursos financeiros. Numa economia com as nossas restrições orçamentais e nível de endividamento, esta questão assume uma importância crítica. Neste artigo deixo apenas uma referência a veículos financeiros especializados no investimento em activos florestais. Em particular, a fundos que podem dar um contributo específico ao lançamento de um movimento de reorganização, redimensionamento e profissionalização da gestão das explorações florestais. Muitos proprietários de terras abandonadas ou com explorações deficientes e expostas ao risco de incêndio estarão hoje disponíveis para as alienar ou para ceder os respectivos direitos de exploração. Os fundos florestais podem apoiar este processo através de um suporte financeiro especializado, bem como podem vir a atrair investidores que procuram este tipo de aplicações.

 

A empresa que o Governo se propõe criar pode - com o apoio técnico do grupo financeiro público e/ou da nova entidade financeira e em eventual articulação com organizações de produtores florestais - lançar "fundos-piloto". Questões para outro dia.

 

Economista

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