Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 21 de novembro de 2017 às 22:39

Incentivos contraproducentes

Os incentivos positivos e negativos, pecuniários ou morais, têm um forte efeito no desempenho com que executamos as nossas tarefas quer ao nível profissional quer ao nível pessoal.

Os incentivos mais fortes são os de natureza moral. O soldado morre pela pátria, porque a ela se sente ligado e obrigado; o médico voluntaria-se para exercer no interior de Portugal, porque quer salvar vidas onde tantos não acedem aos cuidados básicos de saúde; o bombeiro acorre ao toque da sirene, porque quer ajudar o semelhante em perigo. Não exigem retribuições milionárias, agem simplesmente no que sentem ser o seu dever moral.

 

Se trabalhando para o benefício de todos, o operário, o empregado ou o cientista também se dispõem a redobrar de esforços. E tantos voluntários das mais variadas causas ajudam a sociedade em domínios tão díspares como o combate à fome, a preservação da natureza ou a divulgação de uma ideologia ou de uma causa.

 

Nas empresas privadas revertendo o benefício do trabalho para os donos ou acionistas os principais incentivos são, naturalmente, de caráter pecuniário: participação nos lucros, bónus, férias pagas, dias de folga extra, carro da empresa entre muitas formas possíveis.

 

Um bom governo ou uma empresa bem gerida ajusta o sistema de incentivos aos objetivos pretendidos, aumentando dessa forma o empenhamento de todos na sua consecução. Inversamente, os incentivos errados ou a ausência de incentivos levam frequentemente ao desastre.

 

Um exemplo de incentivos errados é o que o atual Governo pretende aplicar aos hospitais que não cumpram os tempos de espera nas urgências. Trata-se de um incentivo negativo de diminuição de até 5% do financiamento desse importante serviço.

 

Face a esse incentivo que podem racionalmente fazer os responsáveis hospitalares, diminuir os recursos de serviços não sujeitos a este incentivo negativo, nomeadamente limpeza das torres de refrigeração, dos serviços de cuidados intensivos e outros, transferindo-os para as urgências, o resultado pode ser mortífero.

 

Os hospitais que não operem esta transferência de recursos serão penalizados em 5% vendo diminuir as suas verbas e, consequentemente, as possibilidades de, sem maiores transferências de outros serviços, atingir as metas. Se não fizerem essas transferências a breve trecho, as urgências estarão fechadas por falta de financiamento.

 

Em qualquer dos casos, o incentivo não leva à melhoria do funcionamento dos hospitais nem dos cuidados dispensados aos doentes. Agindo racionalmente diminuirão os cuidados noutras áreas, agindo moralmente a breve trecho as urgências fecham. Um incentivo que promove uma situação de perda-perda. Perda para a instituição e perda para os doentes.

 

A não ser que a preocupação não seja com os doentes nem com o nível e qualidade dos cuidados prestados, mas uma intensão dissimulada de reduzir o financiamento dos hospitais, não se percebe este incentivo contraproducente.

 

Em Portugal, governantes e gestores implementam frequentemente incentivos contraproducentes e depois queixam-se dos resultados obtidos.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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