Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 27 de setembro de 2017 às 09:30

Indústrias em declínio e abstenção

Na arena eleitoral autárquica, o que temos vindo a presenciar nas últimas décadas é um contínuo aumento da abstenção.

Imaginemos uma indústria em declínio em que as vendas, quer em quantidade quer em valor, diminuem todos os anos. Que fazer numa situação dessa natureza? Uma das respostas tradicionais é a da consolidação, isto é, concentrar a produção num número mais reduzido e mais pequeno de empresas.

 

Esta solução permite uma saída menos dolorosa aos que pretendam desistir do negócio e uma extensão da vida das empresas que se mantenham. A redução da competitividade permite, por outro lado, preços mais elevados que poderão justificar as aquisições.

 

No entanto, esta estratégia de sobrevivência imediata não altera o panorama global que só pode ter dois desfechos: a indústria consegue inovar e reinventar-se e retoma o crescimento ou tenderá a desaparecer mais cedo do que tarde.

 

Na arena eleitoral autárquica, o que temos vindo a presenciar nas últimas décadas é um contínuo aumento da abstenção, ou seja, da legitimidade democrática dos eleitos que cada vez mais conseguem alcançar o poder com os votos de uma minoria cada vez mais estreita de eleitores.

 

Com uma abstenção de 45% e uma vitória com 30% dos votantes, o novo presidente de Câmara consegue o lugar com apenas 13% de aprovação e 86,5% de votos contra ou abstenções.

 

Neste panorama, tal como nas indústrias em declínio, o normal seria uma concentração mas o que temos assistido é uma dispersão ainda maior com o surgimento de candidaturas ditas independentes, mas protagonizadas na sua maioria por autarcas apegados ao poder, muitos acusados de, ou condenados por, corrupção.

 

Mas tal como na indústria em declínio a concentração não chega para evitar o desaparecimento, o sistema político deve envolver os cidadãos se pretende sobreviver.

 

No longo prazo, o elevado nível da abstenção levanta sérios desafios ao sistema democrático que vê erodido o seu pilar fundamental: a representatividade.

 

Uma forma de ultrapassar este problema é a partilha da decisão entre eleitos e eleitores dando voz às associações de moradores, de utentes dos serviços de transporte, às coletividades, aos grupos emanados da sociedade. A transparência, a honestidade, a competência e a participação devem ser critérios a implementar para ultrapassar esta grave crise.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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