Lourenço Alves Pereira
Lourenço Alves Pereira 23 de janeiro de 2017 às 19:08

Inteligência artificial: "skill-biased technology"?

A tecnologia é o principal motor de crescimento do PIB. Ao aumentar a produtividade, a mudança tecnológica permite que a produção aumente mais rápido do que capital e mão de obra. Por sua vez, o aumento da produtividade leva ao aumento do salário médio.

Contudo, este efeito nem sempre afeta toda a população na mesma proporção. Este fenómeno, denominado por "skill-biased tecnhology", refere-se ao enviesamento que ocorre quando os ganhos tecnológicos privilegiam os mais instruídos.

 

No século XIX, por exemplo, assistiu-se a uma mudança tecnológica que aumentou, maioritariamente, a produtividade de trabalhadores não qualificados, o que fez com que o salário médio subisse mais neste grupo, reduzindo a disparidade social. Em oposição, o fim do século XX foi caracterizado por um avanço tecnológico que teve um impacto socioeconómico contrário. Desta vez, o aparecimento dos computadores e da internet veio aumentar mais a produtividade da mão de obra qualificada. Simultaneamente, tarefas quotidianas, repetitivas e facilmente programáveis, desapareceram em prol da Inteligência Artificial (IA). O grupo populacional mais instruído foi, portanto, o mais beneficiado, acentuando a desigualdade.

 

Atualmente, a IA é o expoente da tecnologia. De facto, segundo o Mckinsey Global Institute, esta contribui para uma transformação da sociedade 10 vezes mais rápida e 300 vezes maior do que na Revolução Industrial. Porém, surge a questão: no futuro, quem beneficiará mais com a inovação tecnológica? Haverá enviesamento? A automatização deve ser bem-vinda por todos os benefícios económicos que traz, mas estes não são distribuídos uniformemente. Daqui em diante, é difícil antecipar os efeitos da mudança tecnológica, especialmente porque a IA não é apenas uma, mas sim um conjunto de tecnologias. Não obstante, prevê-se a continuação do "skill-biased tecnhology", à semelhança do que aconteceu nas últimas décadas, e, por isso, uma maior desigualdade social. Adicionalmente, estudos têm mostrado, consistentemente, que os empregos mais ameaçados pela automatização estão concentrados entre os menos qualificados, intensificando a disparidade prevista.

 

No longo prazo, existem vários cenários possíveis. Porém, se já se estima que, neste momento, os oito mais ricos detêm a mesma riqueza que metade da população mundial, no futuro, a tendência parece continuar. Numa lógica de "the winner takes it all", isto traduz-se numa realidade em que apenas um grupo restrito domina os mercados. Ultimamente, em vez de uma prosperidade amplamente partilhada, esta concentração de riqueza implica a inevitável decadência do sistema de incentivos e da sociedade meritocrática. É importante realçar que o que se espera da IA é a continuação de uma era de crescimento económico, abundante em oportunidades. Todavia, o grande desafio passa pela adaptação a um mercado de trabalho que está em constante transformação, de forma a atenuar o risco de uma crescente disparidade social.

 

Head of Investment Banking no Nova Investment Club

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

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