Carlos Pinto de Abreu
Carlos Pinto de Abreu 02 de fevereiro de 2017 às 10:24

Internacionalização e tecnologias nas sociedades de advogados

Sociedades de advogados globais irão mesmo disputar o mercado legal às sociedades nacionais. Não é um risco, é uma inevitabilidade e a curto ou médio prazo.
A internacionalização para as sociedades de advogados de média ou de grande dimensão é, de facto, uma inevitabilidade, quer por razões de procura, quer por razões de oferta de serviços jurídicos transfronteiriços ou de entidades e pessoas estrangeiras com interesses em Portugal ou no espaço lusófono.

A globalização mundial, a livre circulação no espaço europeu e o papel de charneira na ligação com os países de língua oficial portuguesa não deixam alternativa. É um desafio à modernidade e ao desenvolvimento.

Os ditos mercados da lusofonia deveriam ser espaços mais abertos à troca de experiências, a verdadeiras parcerias, mas nem sempre há um comportamento de respeito recíproco e uma atitude de paridade, o que inquina as relações que deveriam ser de confiança e de cooperação franca. Ora há paternalismo, ora há desconfiança, e o futuro, assim, não é, não será, brilhante. O sentimento é de defesa ou de conquista e não de partilha ou de construção em equipa.

Alguma, mas ainda muito pouca, advocacia nacional está num patamar de excelência que não nos envergonha, bem pelo contrário, ultrapassa até os melhores do mundo. Há advogados e advogadas internacionalmente reconhecidos e reconhecidas, mas a verdade é que ainda sobreleva um certo acanhamento, receio, proteccionismo e isolamento, tudo características que não se quebram facilmente.

As pequenas sociedades têm dificuldade em acompanhar a crescente especialização e, salvo raras excepções, em que a aposta é em "boutiques" especializadas, a advocacia generalista e no território nacional ainda é amplamente maioritária. E aí a dificuldade maior é na formação e "migração" para áreas internacionais, e o handicap é a massa crítica para uma experiência externa e alargada mais consistente.

Mesmo nas médias e grandes sociedades onde as condições são mais favoráveis a verdade é que a sofisticação dos poucos advogados e advogadas que vão para além dos mais altos patamares a nível nacional só ou quase só se faz com enorme esforço individual que corresponde a um sacrifício individual não exigido nem exigível à generalidade dos profissionais.

Sociedades de advogados globais irão mesmo disputar o mercado legal às sociedades nacionais. Não é um risco, é uma inevitabilidade e a curto ou médio prazo. E só a crise mundial terá porventura atrasado o movimento que a breve trecho se fará sentir e para o qual teremos que estar, todos, preparados.

Tecnologias - Ainda não há a percepção da crescente importância da economia desmaterializada nas sociedades de advogados nacionais. Basta ver quão exíguas são as rubricas nos orçamentos das sociedades de advogados no que toca aos investimentos quer em hardware quer em software.

Mais, ainda existem desconfianças nas matérias de segurança de informação sobretudo quando se trata de temas como o recurso às soluções de SAS (software as a service) a serviços de gestão de informação ou de arquivo de documentação desmaterializado (v.g. em nuvens).

Acresce ainda que há constrangimentos legais quer da guarda e reconhecimento da força de documentos autênticos em formato desmaterializado que já não existem em países com a dimensão do nosso, e há muito, como é, por exemplo, o caso da Áustria. Não, infelizmente a segurança da informação não está devidamente acautelada e muitas vezes tal sucede por culpa própria, desde logo porque não há políticas claras de restrição de acessos que se poderiam sintetizar na aplicação estrita do princípio need to know.

As tecnologias de informação são, hoje, particularmente úteis, eu diria mesmo, indispensáveis em todo o contencioso de massa e, claro, nas tarefas mais repetitivas que também as há no domínio da informação e do aconselhamento.

Há ainda espaço para os serviços taylor made e isso é porventura a grande mais-valia das pequenas e médias estruturas quando estas têm um foco bem definido, tal como é o caso da nossa que apostou no contencioso, sobretudo no contencioso penal, penal fiscal, penal internacional e de família.

Mesmo as pequenas estruturas não prescindem das tecnologias de informação e, já agora, de comunicação, pois se são cada vez mais exigentes, complexos e diversificados os inputs necessários ao exercício da profissão, é também na criatividade dos out puts que vão ser feitas as destrinças entre os que não sobrevivem ou dificilmente sobrevivem, a custo, e os que vão singrar, embora com custos de transformação e de alteração significativos. 


Segundo de três artigos do autor sobre a actividade das sociedades de advogados


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