Avelino de Jesus
Avelino de Jesus 15 de janeiro de 2017 às 17:15

Investir no consumo - Parte I

Não tivemos, nesta crise, nada que se compare com as quebras que ocorreram aquando dos resgates dos anos 1970 e 1980. A Europa e o euro retiraram-nos instrumentos, protegeram-nos muito mais do que aquelas velhas relíquias por que tantos ainda suspiram.

O fim do ano velho e o início do ano novo trouxe acontecimentos que, aparentemente desligados, estão intimamente relacionados.

 

Foi notada, por muitos, a recente expansão do consumo, interpretada, por uns, como um aumento da confiança e, por outros, como a prova do fim da austeridade.

 

Por outro lado, a morte do Presidente Mário Soares foi recordada pelo seu papel fundamental na aproximação e integração de Portugal às comunidades europeias. Nesse contexto, foram recordados dois factos, sobre a nossa adesão à CEE, ocorridos nos anos de brasa do pós-revolução que ele também gostava de sublinhar: a motivação política - ancorar e consolidar a democracia - e o cepticismo e oposição à adesão dos economistas dominantes na altura.

 

Apesar de algum altruísmo de muitos, talvez uma esmagadora maioria do povo estivesse na altura com a adesão por um motivo mais comezinho: consumir tanto e como a Europa.

 

O desígnio consumista consumou-se em grande medida. A convergência do consumo para os níveis europeus foi, de facto, notável.

 

Mas o processo de convergência desligou o consumo da produção. Os massivos fundos comunitários que começaram a jorrar ainda antes de 1986 (as célebres ajudas pré-adesão), os sucessivos e cada vez mais volumosos quadros comunitários, e depois o crédito abundante e barato, proporcionado pela adesão ao euro, suscitaram um imparável crescimento do consumo.

 

Nem a crise da dívida de 2011, nem a "austeridade" que se lhe seguiu travaram este movimento, aparentemente imparável, da nossa economia. Apesar daquilo que muitos apelidam, e lamentam, de falta de instrumentos (moeda própria, controlo do comércio externo), apesar do prolongamento pouco comum da actual crise, o nível de consumo dos portugueses continuou florescente.

 

Não tivemos, nesta crise, nada que se compare com as quebras que ocorreram aquando dos resgates dos anos 1970 e 1980. A Europa e o euro retiraram-nos instrumentos, protegeram-nos muito mais do que aquelas velhas relíquias por que tantos ainda suspiram.

 

Estes economistas do suspiro serão provavelmente alguns ainda os mesmos ou reencarnações daqueles que desaconselhavam o Presidente Mário Soares da adesão às comunidades europeias.

 

Porém, há um reverso muito negativo da medalha, de que nem o Presidente Mário Soares nem a Europa são culpados: o excesso relativo do consumo. Por mais artifícios que se construam, por mais ajudas, créditos e dívidas que se alimentem e perdoem, o consumo não pode estar desligado da produção por um tempo muito duradouro. O prolongamento da nossa crise tem muito que ver com este facto.

 

O contra-senso do desligamento entre consumo e produção é enganosamente iludido com a suposta existência de um hiato temporal que se traveste de estímulo da procura.

 

Houve um outro contra-senso, que caiu em desuso, nunca foi verdadeiramente assumido e penitenciado e que tem muito que ver com o actual desprezo pela ideia de excesso de consumo. Lembremos de como se teorizou e se tomaram decisões importantes em consonância com a ideia do desaparecimento - com a adesão ao euro - do problema do desequilíbrio da balança de pagamentos.

 

Muitos economistas usaram uma fórmula popular: "Viver acima das possibilidades." Embora muitos rejeitem a ideia, outros aceitam-na, mas interpretam-na apenas no sentido do desequilíbrio da balança de pagamentos. Esta concepção errada de que estando a balança de pagamentos, grosso modo, equilibrada, já não vivemos "acima das nossas possibilidades", leva ao corolário de que temos, outra vez, permissão - ou mesmo ordem - para gastar.

 

A relação entre o consumo, a produção e o investimento é das formulações mais básicas da economia. Que nos nossos dias ainda tantos e tão responsáveis insistam em "investir" no consumo mostra bem o estado de literacia económica reinante. 

 

Veremos no próximo artigo - precisamente e com o auxílio de alguns números elucidativos - em que consiste o excesso de consumo e quais as suas consequências, uma das quais já atrás nomeei: o prolongamento da crise.

 

Economista e professor do ISEG

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