Fernando  Sobral
Fernando Sobral 04 de fevereiro de 2018 às 22:15

Isto não é um cachimbo

O MP está a fazer militantemente o pior que pode acontecer à justiça: vive na idade do espectáculo. Sabe-se o que acontece depois.

Há um quadro famoso do surrealista René Magritte, "Ceci n'est pas une pipe", com um desenho de um cachimbo que tem, por baixo, uma frase: "Isto não é um cachimbo." Ou seja, o objecto representado não o é. Este exercício parece ser agora o guia de comportamento do Ministério Público português. Por baixo de uma estátua da justiça, com a deusa vendada e com uma espada e uma balança nas mãos, o MP (e a PGR) parece querer, num momento inspirado na observação cuidadosa de quadros de naturezas-mortas, inscrever a frase: "Isto não é justiça." Este exercício de frugalidade ficou agora patente num dos mais patéticos e infantis exercícios do poder judicial nos últimos anos. Alguém, no MP, leu nos jornais ou viu nas redes sociais que Mário Centeno tinha pedido dois bilhetes para um jogo do Benfica e, num exercício de Sherlock Holmes manhoso, reparou que havia algo com uma isenção municipal a uma empresa de Luís Filipe Vieira. Aí descobriu o segredo da electricidade e viu a luz: tudo está ligado. Rapidamente se fez soar que Centeno estava a ser investigado e fez-se uma busca às instalações do Ministério das Finanças. Depois de se ter conseguido colocar em causa a presença de Centeno à frente do Eurogrupo, a PGR veio anunciar, célere, o "arquivamento por falta de provas". Se isto não fosse uma prova de incompetência infantil e o caso não fosse sério (porque envolve a imagem do Estado) até poderíamos pensar que já estávamos no Carnaval.

 

O MP acha que a justiça é um serviço de pizzas ou de frango assado ao domicílio. Mas, para isso se concretizar, não instrui processos: cria uma empresa de distribuição. A questão é que, depois desta actuação trapalhona, não se escutou uma palavra da agora endeusada Joana Marques Vidal. Nem um pedido de desculpas da PGR. Nem o anúncio de um inquérito interno à palermice do MP. Cioso de ser autónomo face aos poderes eleitos, o MP parece precisar de uma Supernanny. O MP está a fazer militantemente o pior que pode acontecer à justiça: vive na idade do espectáculo. Sabe-se o que acontece depois.

 

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comentários mais recentes
Alvaro 05.02.2018

Simples e claro. Mas será que alguém no MP/PGR o leu?

Anónimo 05.02.2018

Como sempre um bom artigo,dá-lhe mesmo na muje.Pena é que aqui comentem pessoas que parece fazerem parte da tal empresa de distribuição ao domicílio (pasquim correio da manha) e que assumiram a loucura do dono no que cocérne ao avaqualhamento de qualquer pessoa.

Mr.Tuga 05.02.2018

Não concordo!

Ninguém esta acimas de suspeitas!!!!!!!!
Investigue-se TUDO e TODOS de forma célere! Que não deve, não teme!
Se o pateta amador e incompetente não tem ÉTICA e se poe a jeito (ao misturar com a corja de ASNOS futeboleiros) a culpa é dele!
Que sirva de exemplo para o futuro...

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