João Borges de Assunção
João Borges de Assunção 12 de abril de 2017 às 19:40

Isto não será um brexitinho

No dia 29 de março a primeira ministra britânica invocou o artigo 50 do Tratado Europeu iniciando formalmente o processo de saída da União Europeia. Este episódio ficará na História como uma decisão desditosa.

Em termos geopolíticos é o evento mais significativo desde a queda do muro de Berlim em 1989. As consequências desse momento foram vastas, continuam a repercutir-se no presente e não eram antecipáveis nos seus aspetos mais marcantes pela generalidade dos observadores coevos.

 

Na busca de um paralelo histórico vale a pena lembrar que o soberano inglês, como rei de Hanover numa união monárquica pessoal, era membro da Confederação Germânica (1815-1866) até 1837. E nessa data com ascensão da rainha Vitória ao trono de Inglaterra, perdeu a coroa de Hanover apenas pela razão de que sendo mulher não a podia herdar. O "brexitinho" de 1837 não resultou assim de um referendo, mas sim das diferenças de regras sucessórias em dois reinos distintos. Não sabemos se a posterior guerra austro-prussiana de 1866 teria ocorrido de forma semelhante se houvesse uma participação mais ativa dos ingleses no continente europeu. Curiosamente a Confederação Germânica durou apenas 51 anos pelo que teve uma vida mais curta que a União Europeia que celebrou este ano 60 anos de existência.

 

A saída do Reino Unido da União Europeia terá consequências geopolíticas significativas. E cria dificuldades geoestratégicas novas para muitos países, entre os quais Portugal. Será que viremos a ser obrigados a graduar os nossos aliados? Afinal na nossa História a Inglaterra tem sido vital. Mas no presente os nossos principais aliados são os americanos, menos fiáveis agora, e os alemães.

 

O mesmo dilema poderá dilacerar muitas democracias europeias. Para quê tantos custos se uma convivência pacífica na Europa democrática parece ser o cenário desejado pela generalidade dos governos e povos europeus? O mesmo se passa em muitos territórios britânicos, como a Irlanda do Norte, que poderão ser forçados a estéreis debates identitários. A decisão unilateral, embora legítima, do governo britânico é uma enorme desilusão. E ficámos todos mais vulneráveis por causa dela.

 

No curto prazo, os temas financeiros irão dominar. Por um lado, fazer as contas às responsabilidades do Rein o Unido no seio das instituições europeias. Esses cálculos são complexos e em números redondos já foram estimados em cerca de 60 biliões (milhares de milhões) de euros. Acresce que o seu sistema financeiro está fortemente ligado ao resto da Europa e os balanços dos bancos britânicos têm muitos ativos e responsabilidades expressos em euros. As autoridades britânicas dizem que esses riscos cambiais foram neutralizados ainda antes do referendo. Mas será que o Banco de Inglaterra tem capacidade para lidar com os riscos em euros dos bancos ingleses? Ou estará dependente dos acordos de cedência de liquidez que vier a celebrar com o BCE no contexto do Brexit?

 

A médio prazo, os temas económicos, são os mais significativos. No cenário ideal o Reino Unido saía da União Europeia, mas continuava a aplicar todas as suas regras incluindo a contribuição financeira para os programas europeus. A poupança económica aqui seria escassa. Apenas o custo das deslocações e estadia dos governantes britânicos a Bruxelas incluindo o valor do seu tempo nas longas reuniões dos intermináveis Conselhos Europeus. Alternativamente, o Reino Unido adotará regras de mercado significativamente diferentes da União. Alguém acredita que essas regras serão criadoras de riqueza? Pelo contrário, constituir-se-ão numa nova barreira ao comércio internacional onde só se vislumbram perdedores dos dois lados do Canal da Mancha.

 

A bifurcação histórica do Brexit dificilmente trará benefícios. A Inglaterra faz parte da Europa e o seu sistema de valores, recursos económicos e de segurança eram fatores de moderação e liberdade na União. A sua saída é uma decisão irrefletida e marcada por disputas políticas internas, dimensões emocionais e de recuperação de soberania. A apatia e falta de convicção da liderança britânica está desalinhada da sua tradição histórica. É triste vê-los partir em nome de nada. "Come back soon, old sport!"

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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