Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 07 de junho de 2017 às 21:03

Já não é o que era 

Quem tiver poupança e comprar ações de um banco é certamente porque não tem "amor ao dinheiro".

No minidebate que tenho lido e ouvido sobre eventuais participações no Montepio reforço uma ideia que anteontem falei no Jornal da Noite da SIC: cada vez mais no mundo, por razões várias, quando se trata de determinados assuntos que exigem reserva, acontece o seguinte, fala quem não sabe e quem sabe não fala. Quem sabe não fala porque não pode, não deve, porque é aconselhável que guarde descrição e recato. Os que falam sobre os temas, normalmente, não têm informação sobre eles e, nalguns casos, formação para os comentar. Mas pronto, a partir do momento em que alguém atira um foguete, há muitos que correm atrás. Exceciono destas considerações aqueles que, por deveres de ofício, os jornalistas, têm por missão procurar essa informação e ter (ou ganhar) tanta formação quanto possível nas suas áreas de trabalho. Neste debate ficámos a saber que, hoje em dia, quem tiver conseguido fazer poupanças consideráveis na sua vida nunca deve investir em bancos. Fazer depósitos, sim, talvez, apesar da pouca atratividade das remunerações em épocas como a que vivemos. Mas ser acionista, não. A partir de agora só pode ou deve ser acionista de banco quem tenha por profissão e, eventualmente, formação de banqueiro.

 

Antes, os bancos eram criados, comprados, por quem acumulava recursos noutras áreas de atividade. Hoje em dia, nos termos do debate que vou ouvindo, não pode ser assim. Quem tiver poupança e comprar ações de um banco é certamente porque não tem "amor ao dinheiro". Antes, quem tivesse a possibilidade de se tornar acionista de um banco era considerado detentor de um privilégio e era meio caminho andado para aumentar a fortuna, eventualmente, já existente. Agora não. Entrar num banco é um ato de loucura e é meio caminho andado para a ruína. Passando alguma dose de ironia, quero dizer que lamento os termos distorcidos com que se analisam matérias tão sérias. A questão principalmente para quem gere disponibilidade e recursos financeiros é saber naturalmente qual a melhor maneira de os rentabilizar e não os ter parados, depreciando-se. Cheguei a ler, nestes dias de intenso fervor, a opinião de que o dinheiro que a Santa Casa tem devia ser aplicado a fazer mais hospitais, creches, escolas. Hospitais a Santa Casa está neste momento a fazer, mas seja o que for de investimento que até possa ser decidido, tem de levar em conta uma ponderação essencial: calcular aquela que será a exigência futura no que respeita a despesas de funcionamento e de manutenção. Ou seja, alguém até pode ter dinheiro para fazer dez hospitais, mas a questão está em saber também se essa entidade terá dinheiro para os manter de um modo sustentável.

 

Com o passar dos anos, fui aprendendo a ter muita tolerância para com as polémicas, mesmo as mais intensas. Por decisões do destino, fui tendo as diversas funções que tenho exercido sempre com o condão de ter responsabilidades em dossiês bem polémicos em cada época. Só como exemplo, cito a construção do CCB, enquanto secretário de Estado da Cultura, o Túnel do Marquês, enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e agora esta eventual participação da Santa Casa no setor financeiro. Não é que não se tenham construído grandes projetos culturais ou outros túneis, ou que não tenham existido outras participações financeiras, mas já percebi que, sem presunção, comigo tem outro "sabor". Mas a verdade também, é que com o tempo tenho-me convencido a não desistir quando estou convicto. Neste caso, como tenho procurado esclarecer, ainda não há, nem podia haver, qualquer convicção formada.

 

Advogado

 

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mais votado JCG 08.06.2017

O investimento no negócio bancário (compra e posse de acções de bancos) devia continuar a ser um bom investimento. Afinal de contas, o sector bancário tem um poder dominante sobre a economia e até sobre o governo e políticos em geral e, como se vê diariamente, continua a cobrar preços de forma arbitrária, abusiva e excessiva sobre o que produz e vende (que vende cada vez mais de forma impositiva), o que é o sonho de qualquer negócio.
Só há 2 razões para que o investimento em bancos tenha perdido atractividade: a acção e intromissão incompetente e ou negligente por parte de reguladores e supervisores e a má gestão e até acção predatória e de pura rapina por parte de gestores bancários.
Infelizmente, não vejo que esses dois factores que conduziram à crise nos bancos venham sendo alvo de investigação e análise apurada e competente. E enquanto assim acontecer, alguns continuarão a cavar os buracos (e a engordas as suas contas) que mais adiante outros terão de tapar ou cobrir.

comentários mais recentes
nin 09.06.2017

Ou seja; vais mesmo entalar a SCML no Montepio. A pergunta, caro Santana Lopes, que deves fazer a ti mesmo é esta - se é certo que o Montepio precisa desesperadamente da SCML, a SCML precisa do Montepio para alguma coisa?
O Provedor da SCML não tem funções no, nem obrigações com, o Montepio.

Ortigao.Sao.Payo 08.06.2017

Cuidado com os pareceres pois muitas vezes jogam no escuro, confirmar mais duas vezes as suas opiniões ou pedir lhe um seguro pelo em quatro vezes o valor

Rekorbp 08.06.2017

Há muitos anos em uma entrevista de emprego para o BPN, disse de forma ingénua e após ter analisado as contas do banco, ao gestor dos recursos humanos que o BPN estava a fazer umas asneiras, ficou bastante ofendida e quase me expulsou da sala, excusado dizer que não consegui o emprego, uns anos depois, veio tudo abaixo.Tudo se sabia nada se fez. O Dinheiro não é simples papel, neste momento a posse desse papel equivale a poder sobre tudo e todos principalmente em uma economia em que a corrupção pública é bem maior do que se pensa ou imagina, um capitalismo subsidiado em que toda a produção é absorvida por elementos do estado e privados,( em sentido muito restrito) através de um sistema parasitário, o que temos actualmente é um cancro no qual se está a tentar lutar sem qualquer eficiência, visto que o sistema diz que esse cancro é necessario sendo o sistema esse cancro. E esse cancro é criado por elementos que já nem conseguem controlar o que criaram, as mestatases são enormes.

JCG 08.06.2017

O investimento no negócio bancário (compra e posse de acções de bancos) devia continuar a ser um bom investimento. Afinal de contas, o sector bancário tem um poder dominante sobre a economia e até sobre o governo e políticos em geral e, como se vê diariamente, continua a cobrar preços de forma arbitrária, abusiva e excessiva sobre o que produz e vende (que vende cada vez mais de forma impositiva), o que é o sonho de qualquer negócio.
Só há 2 razões para que o investimento em bancos tenha perdido atractividade: a acção e intromissão incompetente e ou negligente por parte de reguladores e supervisores e a má gestão e até acção predatória e de pura rapina por parte de gestores bancários.
Infelizmente, não vejo que esses dois factores que conduziram à crise nos bancos venham sendo alvo de investigação e análise apurada e competente. E enquanto assim acontecer, alguns continuarão a cavar os buracos (e a engordas as suas contas) que mais adiante outros terão de tapar ou cobrir.

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