Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 05 de dezembro de 2016 às 20:15

Já podemos fazer perguntas estúpidas

Aprendemos depressa a deixar de perguntar. Por medo que nos julguem burros. Mas isso era ontem. Hoje temos o Google.

Einstein dizia que o mais importante é não parar de fazer perguntas. Constatava que se a escola premeia quem sabe dar respostas, na vida vence quem faz perguntas. E quando queriam saber a que atribuía o seu génio, respondia que o único talento que possuía era uma curiosidade apaixonada. Que, por milagre, sobrevivera à educação formal.  

 

Mas a verdade é que, apesar de todos os avisos, deixamos depressa de perguntar. Por medo que nos julguem burros, por vergonha de mostrar a nossa ignorância e, na dúvida, aprendemos que mais vale ficar calado, passando por inteligente, do que abrir a boca e deitar tudo a perder. O sistema é de tal forma perverso, que acaba por premiar aqueles que colocam questões, para as quais sabem de antemão a resposta, fingindo que acabam num ponto de interrogação.

 

Mas isso tudo era dantes. Hoje temos o Google. Às escondidas, secretamente, nas barbas dos outros, já podemos fazer todas as perguntas que nos apetecer. As perguntas estúpidas, essas mesmas, a somar às que não verbalizávamos por timidez, pudor, ou à falta de quem nos pudesse satisfazer a curiosidade. E como uma resposta (obrigada, Wikipedia) suscita sempre mais uma pergunta, podemos continuar por aí fora até ao infinito, porque o Google nunca se cansa, nem nos manda calar, nem sorri trocista, nem franze o sobrolho, nem põe aqueles ares de superioridade ("O quê não sabes? Mas não sabes mesmo?! Estás a brincar!") que nos deixam com vontade de nunca ter perguntado. É evidente que a questão continua a ser a formulação da pergunta - e quanto mais praticamos, mais rápidos somos a chegar onde queremos - , e é óbvio que no admirável mundo novo da internet nem toda a informação é a correta, mas um bom perguntador sabe distinguir o trigo do joio, aproximando-se do conhecimento. 

 

Tenho a certeza de que Einstein ficaria contente por saber que a cada segundo o Google recebe 40 mil questões, ou seja, cerca de 3,5 biliões por dia, crescendo o número à medida que podemos perguntar no momento: as ligações móveis vão representar 68% de tráfico quando entrarmos em 2017, e as respostas vão estar, literalmente, nas pontas dos dedos. E fascinado, ao perceber que podia, à velocidade da luz, ou quase, descobrir o que as pessoas procuram saber. Em 2015, os internautas que acederam a este motor de busca desejavam, antes de mais nada, confirmar se deviam ou não levar guarda-chuva no dia seguinte (meteorologia), e, em segundo lugar, como traduzir uma palavra (tradutor). Em terceiro, queriam ajuda para chegar a algum lado (mapas), e, em quarto, saber o que se passava no mundo (notícias).

 

Mas suspeito de que não o surpreenderia que agora, como sempre, as leis que importam às pessoas são as mais prosaicas: como ser feliz (1.º), como ser bonito (2.º), como ser popular (3.º), como ser rico (4.º) ou, em 5.º, como ser popular na escola (Einstein, que detestou a escola, concordaria comigo que a infância só foi um tempo dourado para quem perdeu a memória).

 

Como não o espantaria a relatividade dos problemas. De pergunta em pergunta, cheguei às notícias mais vistas (na sexta-feira passada), para concluir que enquanto vivíamos na ilusão de que a nomeação de Paulo Macedo para a CGD galvanizava o país, a malta estava era a ver a Irina Shayk a desfilar grávida, e a restante a aprender a fazer panquecas.

 

Nota: Pergunta que não vale a pena fazer, porque lhe dou já a resposta: não, não sou acionista da Google.

 

Jornalista

 

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