Lusa 18 de outubro de 2011 às 10:59

José Reis: "Não estamos a gerir uma crise, estamos a desconstruir a sociedade e a economia"

O economista José Reis considera que o Governo, em vez de gerir a crise, está "a desconstruir a sociedade e a economia", realçando "uma fortíssima desvalorização do trabalho" na proposta de Lei do Orçamento do Estado para 2012.
"Creio que no caso do Orçamento do Estado é adequado falar de violência desmedida do ponto de vista das principais medidas, porque há uma nota que é por demais evidente que é uma fortíssima opção, quase única, pela contracção salarial, pela desvalorização do trabalho", afirmou hoje à Lusa o director da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

Em declarações à Lusa, José Reis disse que o Governo "não está a gerir uma crise, mas a desconstruir a sociedade e a economia", considerando que as medidas propostas, "além de violentas e injustas, têm um efeito recessivo que está expresso no cenário macroeconómico divulgado", que prevê uma recessão de 2,8 por cento em 2012 e uma taxa de desemprego de 13,4 por cento, um recorde.

Um dia depois do Governo ter entregue no Parlamento a proposta de Lei do Orçamento do Estado para 2012, o economista afirmou que "a questão começa a estar muito para além do ponto de vista económico passando para o foro jurídico e constitucional", considerando que "há uma regressão social".

"A constituição portuguesa há muito que estabeleceu a ideia de que as instituições proíbem a evolução reaccionária no sentido da regressão social, da regressão de direitos, que é o que se está a passar aqui", declarou.

Para o investigador do Centro de Estudos Sociais, deveria haver "outra noção de prazo para resolver as coisas", considerando que "a sapiência está em articular medidas de curto com medidas de longo prazo".

Além de uma "total perda de confiança nas normas sobre mecanismos fundamentais como é o do salário", José Reis alerta para "um problema de proporcionalidade" e de "violência desproporcionada", criticando o facto de não ter havido coragem para incidir sobre "outros rendimentos, designadamente os da propriedade".

Em declarações à Lusa, o economista rejeitou ainda a noção de que a competitividade da economia depende da redução dos custos salariais, com a agravante de "ao agir sobre a despesa, vai haver menos receita".



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