Rui Patrício
Rui Patrício 03 de Novembro de 2016 às 19:41

Le Carré em Hong Kong

Costumo dizer que há três coisas essenciais para ter êxito no que se faz: a primeira é trabalho, a segunda é trabalho e a terceira é trabalho. Parece "boutade", mas não é.

Parece deslocado, num tempo em que se valoriza muito as "skills" ditas "soft", mas não é. E também não significa que despreze ou desvalorize aquelas - antes pelo contrário, pois julgo que são essenciais, e cada vez mais, à medida que a vida e o trabalho se tornam mais complexos, mutáveis, exigentes, plurais e relacionais. Significa apenas que a necessária valorização das que são "soft" não pode fazer com que nos esqueçamos da importância das competências e qualidades "hard", e que aquelas se somam a estas, mas não as substituem. Às vezes, no discurso moderno - marcado pela rapidez, por alguma superficialidade e por frases e ideias curtas de gurus e de magazines - perde-se um pouco isto de vista, e aqui e ali até parece que o trabalho e a técnica são secundários ou dispensáveis, bastando a inteligência relacional, o espírito de equipa, a visão 360 graus, a resiliência, a atitude positiva, a abertura ao mundo, o empreendedorismo, o espírito inovador, a adaptabilidade, a flexibilidade, "et cetera".

 

Tudo isto é importantíssimo, mas não substitui o trabalho. Este só por si também não basta - e ai de quem julgar que sim, sobretudo se integrado em estruturas marcadas pela complexidade e pela diversidade. Mas o facto de o trabalho, só por si, não bastar não quer dizer que não deva ser a base de tudo. Estudar, trabalhar, pesquisar, estar focado, planear, rever, estudar outra vez, rever de novo, prestar atenção, preocupar-se, repetir, aprender fazendo e errando, ouvir, ler, ver. Trabalhar, trabalhar e trabalhar. Sem isto, não há nada "soft" que só por si faça com que haja verdadeira realização e verdadeiro êxito no que se faz - tanto mais quanto mais levarmos em conta que, como se diz que dizia o general, as oportunidades devem ser agarradas pelos cabelos, mas sem esquecer que elas são carecas. E, sobretudo, sem isso não se cumpre uma ética de fazer as coisas bem e com responsabilidade, que é mais importante do que o êxito e a realização, sobretudo em profissões ou em funções em que outros dependem muito de nós. Pensar "out of the box" está muito bem e é importante, mas - como costuma ensinar Howard Gardner - primeiro é preciso ter box.

 

No seu recente livro "The Pigeon Tunnel", John Le Carré conta que na primavera de 1974 chegou a Hong Kong e descobriu que fora construído um túnel subaquático entre Kowloon e a ilha, coisa que ele ignorava. E qual o problema? O seu livro "Tinker Tailor Soldier Spy" estava no prelo, e nele assumia relevo o facto de as ligações entre Kowloon e a ilha estarem dependentes do "ferry" - o Star, que ainda hoje existe e que não perdeu a mística (digo eu), mas perdeu grande parte da sua utilidade. Le Carré - que confessa ter escrito o livro no que toca a Hong Kong com a leitura, no conforto da Cornualha, de um guia turístico desatualizado - ainda tenta que o livro não saia, para que possa alterá-lo. Mas sai. A partir daí, diz-nos ele, passou a investir muito mais na pesquisa e no trabalho de campo e a desconfiar das fontes indiretas e das facilidades sedutoras da memória. O livro saiu sem a alteração, não foi grave, era só ficção. Na vida real, talvez fosse sério, talvez comprometesse uma tarefa, talvez colocasse em causa alguém dependente do nosso trabalho. Mesmo que se tratasse só de um detalhe. Mas, já sabemos, é nos detalhes que melhor se esconde o demo.

 

Advogado

 

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