Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 14 de fevereiro de 2017 às 20:05

Libertem Mário Centeno

Já aqui defendi a normalidade da cooperação estreitíssima que o Presidente da República tem oferecido ao Governo. O Presidente tem a obrigação de garantir o regular funcionamento das instituições e isso passa por dar ao Governo as melhores condições políticas possíveis.

No entanto, defendi também que um Presidente tão popular, ao dar um apoio tão ostensivo, pode estar, ainda que inadvertidamente, a criar uma armadilha para o Governo, porque a partir de certo momento já não se sabe se é António Costa que tem o apoio de Marcelo ou se é Marcelo que tem a tutela de Costa. Um Governo dependente da hiperpopularidade do Presidente, contra o qual não se pode dar ao luxo de estar, acaba sempre diminuído na sua autonomia funcional e estratégica.

 

Os últimos desenvolvimentos na polémica em torno da CGD mostram como esse risco é evidente. Com os dados que vieram a público sobre a correspondência entre António Domingues e o Governo, é impossível negar que se quis mesmo isentar os administradores da entrega das declarações de rendimentos e património ao Tribunal Constitucional (como se fosse necessária prova adicional, depois de Mário Centeno ter dito publicamente, em Outubro, que assim foi, de facto). Ao que acresce a constatação, segundo lembrou Marques Mendes, de que a publicação do decreto-lei condizente com aquela intenção foi extravagantemente protelada por mais de um mês depois da promulgação presidencial, até à ida a banhos dos deputados (para que estes não levantassem ondas). Ou seja, o Governo não só quis excluir a administração da Caixa das obrigações de transparência como não estava de consciência tranquila com o assunto.

 

O Presidente não gostou destes desenvolvimentos e chamou o ministro das Finanças a Belém. Do que veio a público, Marcelo pediu a Centeno que produzisse um esclarecimento em conferência de imprensa. Era algo que o Governo não podia aceitar. Porque isso significava admitir que havia realmente algo por esclarecer (o que encalhava na narrativa oficial). E porque colocar Centeno naquela carreira de tiro, de urgência, comprometido como está, e com a sua conhecida falta de jeito comunicacional, seria a receita para o desastre. Mas lá está: como é que o Governo podia bater o pé a Marcelo?

 

O "esclarecimento" foi, como se sabe, um épico e confrangedor falhanço - desde a eloquente linguagem corporal até à declaração inicial, lacónica e sem sentido útil, passando pelas respostas evasivas aos jornalistas e pela deambulação risível sobre um gloriosamente eufemístico "erro de percepção mútuo".

 

Talvez a estratégia do Governo não fosse o esclarecimento, mas antes que tivéssemos pena de Centeno. Comigo resultou. Não parece, porém, que tenha resultado com o Presidente, que não tardou a emitir um comunicado fatal. No primeiro ponto (logo no primeiro ponto!), Marcelo regista a disponibilidade do ministro para cessar as suas funções. No segundo, terceiro e quarto, dá a entender que foi o Governo que prometeu o que não podia cumprir, contra o próprio Presidente. No último ponto, avisa que só aceita a continuidade de Centeno porque Costa lhe disse que tal é essencial para a "estabilidade financeira" do país.

 

Com isto, Marcelo deu a sua opinião: o Governo tem andado a mentir aos portugueses e fez uma gestão do dossiê Caixa que abandalha a dignidade do Estado e a confiança dos portugueses nas instituições democráticas. Centeno é um peso morto político. Mas, lembrou o Presidente, é um peso que já só repousa, exclusivamente, nos ombros de António Costa.

 

Advogado

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comentários mais recentes
Anónimo 16.02.2017

Pelo que tenho lido acerca do Ministro das finanças pois só que eu tenho a dizer é que deixem o homen trabalhar que está a fazer muito bem para o País e mandem calar todos do CDS e PSD porque os portugueses ainda não os esqueceram que pelo direito todos os chefes deviam de estar Presos

comunista marxista-leninista 15.02.2017

Força, Centeno, o melhor ministro das finanças de todos os tempos. Os portugueses estão contigo. Por favor não ligues aos cães que ladram de inveja e não nos abandones.

Anónimo 15.02.2017

Eu acho que globalmente o Centeno tem feito um bom trabalho, por uma questão de honestidade reconheço-lhe o mérito, pois os números são uma evidência. Somente atrapalhou-se no caso Domingues, um Gestor de Recursos Humanos quando topa com um candidato problemático, descarta-o. Escolhe outro. Simples.

Anónimo 15.02.2017

1º Reprovo a atitude de Domingues, pois anda a espalhar as suas SMS em acto conspirativo e de vingança. 2º, devia o POVO exigir ao Ministério Público que os Bens desses senhores fossem investigados. Quem não deve não teme! Responda-se às dúvidas sobre a origem do património desses banqueiros.