Norbert Winkeljohann
Norbert Winkeljohann 09 de março de 2017 às 20:00

Lições da Alemanha sobre integração de refugiados

A Alemanha, que recebeu cerca de 1,1 milhões de pessoas em 2015, conhece muito bem essa pressão. E mesmo assim a Alemanha não cedeu. Pelo contrário.

Governos por todo o mundo enfrentam um enorme desafio. O número de migrantes internacionais cresceu nos anos mais recentes, atingindo 244 milhões em 2015 – um aumento de 41% desde 2000. Sendo que este total inclui 20 milhões de refugiados, prevenir um pesadelo humanitário exige uma integração rápida e responsável nas sociedades de acolhimento. O desafio logístico de fazê-lo está a colocar sob crescente pressão os países que enfrentam maiores influxos.

 

A Alemanha, que recebeu cerca de 1,1 milhões de pessoas em 2015, conhece muito bem essa pressão. E mesmo assim a Alemanha não cedeu. Pelo contrário, lidou com a pressão extremamente bem, provando que através de colaboração sustentada entre governos, empresas e sociedade civil, os países podem desenvolver abordagens efectivas por forma a responder às necessidades dos refugiados e dos países que os recebem.

 

Para ter sucesso, cada país tem de assegurar que dispõe das capacidades, recursos e estruturas para gerir eficientemente as necessidades dos refugiados. Uma gestão sólida e coordenação entre países de trânsito e de destino podem permitir que governos, empresas, ONG’s e agências humanitárias respondam com maior efectividade aos desafios que, inevitavelmente, irão surgir ao longo do caminho. Ao mesmo tempo, para assegurar que os actores em trânsito e os países de recepção conseguem verdadeiramente providenciar respostas às necessidades dos refugiados, os desafios que surgem têm de ser vistos da perspectiva dos refugiados.

 

Felizmente, a necessária cooperação e compromisso parecem estar a emergir. Do meu ponto de vista privilegiado desde a Alemanha, tenho visto um número cada vez maior de empresas a aproveitar a oportunidade para responder aos desafios logísticos e humanitários, providenciando serviços que ajudem os refugiados a reconstruírem as suas vidas ao mesmo tempo que partilham os custos ao nível das infra-estruturas, tecnologia, cuidados de saúde, formação, educação e outros.

 

Em particular, cerca de 100 empresas germânicas, incluindo algumas que representam nomes de famílias, juntaram-se à iniciativa Wir Zusammen (Nós Juntos), que tem como finalidade ajudar a integrar recém-chegados. Até à data, a iniciativa assegurou estágios a cerca de 1.800 refugiados e aprendizagem a outros 300.

 

A minha própria empresa, a PwC Alemanha, oferece um curso gratuito de 10 dias de língua e treino vocacional aos refugiados acabados de chegar – o período mais crítico para eles. Muitos refugiados estão proibidos de trabalhar durante os primeiros três meses no país de acolhimento e têm dificuldade em aceder aos programas públicos de integração antes de os seus pedidos de asilo serem aprovados. Graças à nossa iniciativa e a outras equivalentes, os refugiados podem usar esse período para se prepararem para entrar no mercado de trabalho, adquirindo importantes valências, isto sem mencionar um certificado de avaliação às suas aptidões ocupacionais. Tais iniciativas ajudam não apenas os refugiados, mas também as empresas – e, por sua vez, a economia alemã.

 

As empresas que não têm medo das barreiras linguísticas e das diferenças culturais inerentes ao período inicial do processo de integração são recompensadas com a possibilidade de treinar e contratar pessoas altamente motivadas e, muitas vezes, altamente qualificadas. Para as empresas com escassez de pessoas qualificadas, isto deve ser particularmente tentador. Produção industrial, cuidados de saúde e enfermagem deverão ser os sectores a beneficiar mais do aumento do mercado da mão-de-obra.

 

A experiência da Alemanha apresenta importantes lições a outros países que estão a tentar reinstalar refugiados. Uma das mais importantes e facilmente aplicável passa pelo facto de a jornada dos refugiados ser mais bem gerida segundo quatro fases distintas.

 

A fase de trânsito. O refugiado escapou de um país onde a vida se tornara insustentável, seja devido a conflitos ou à ausência de oportunidades económicas, mas tem ainda de chegar ao país de acolhimento. Esta é a fase de maior insegurança, durante a qual os refugiados não têm um porto seguro. São vulneráveis não apenas aos elementos, mas também aos contrabandistas, traficantes e outros criminosos que procuram tirar vantagem das suas vulnerabilidades.

 

A fase de chegada. Os refugiados encontram uma certa aparência de segurança a partir do momento em que recebem acolhimento temporário e apoio. Durante esta fase eles podem registar-se no actual país de acolhimento e fazer a requisição de asilo no país da sua escolha.

 

Protecção, estabelecimento e integração. Uma vez nos seus países de escolha, os refugiados recebem protecção e apoio enquanto aguardam a avaliação das suas requisições de asilo. Se validadas, recebem casas e são integrados nas comunidades através de programas de trabalho e educação. Na verdade, eu acredito firmemente que a integração funciona melhor quando ligada a aprendizagens práticas e a oportunidades profissionais concretas.

 

A fase de repatriamento. Se o pedido de asilo de um refugiado for recusado, ele ou ela são devolvidos ao país de origem. No longo prazo, a repatriação pode ocorrer mesmo com refugiados a quem foi concedido asilo, isto se as circunstâncias nos seus países tiver mudado e se for seguro regressar.

 

Em cada uma das fases há muitas tarefas paralelas que requerem competências e recursos. Tal como vimos na Alemanha, as empresas podem desempenhar um papel fundamental no apoio aos governos nacionais e locais, ajudando os refugiados, a elas próprias e o conjunto da economia. Neste sentido, a crise dos refugiados é realmente uma oportunidade valiosa. Em nome da causa dos refugiados – e da nossa – não devemos desperdiça-la.

 

Norbert Winkeljohann é sócio-sénior da PwC Alemanha.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

 

Tradução: David Santiago

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comentários mais recentes
Anónimo 13.03.2017

"Até à data, a iniciativa assegurou estágios a cerca de 1.800 refugiados e aprendizagem a outros 300."

Como são 1 100 000 , ou mais esses números citados são ridículos a sorte é que a Alemanha é rica e tem 20 a 30 mil milhões para sustentar todos em subsídios terão emprego 5 a 10% davam números sobre o assunto agora não .