Miguel Pina e Cunha
Miguel Pina e Cunha 11 de Janeiro de 2017 às 19:12

Lições do Evereste

Algumas empresas têm procurado aumentar a motivação dos seus quadros recorrendo a objetivos ultra-ambiciosos. Há quem lhes chame objetivos Evereste.

A propósito do nome, o que podem as organizações aprender sobre objetivos Evereste com o próprio Evereste? Lendo uma entrevista com o alpinista João Garcia publicada no Diário de Notícias este julho, fica claro que a primeira regra é que para chegar ao cume é necessário pensar muito e planear meticulosamente. Não se parte para o topo sem preparar bem o trajeto. A ambição é importante, mas a preparação e o planeamento são críticos. Lá em cima, rezam os relatos, o mau tempo é "bíblico", escreveu André Macedo. O corpo está gelado e o vento varre tudo sem misericórdia.

 

Um recente filme, "Evereste", ilustra os perigos de querer chegar onde os outros não alcançam. O trabalho ilustra a história de duas empresas de montanhismo que pretendem ajudar os seus clientes a atingir o teto do mundo, proporcionando uma "experiência" irrepetível e capaz de justificar o muito dinheiro investido no esforço. As coisas correm mal e a dita experiência acaba por redundar em desastre. Diversos trabalhos publicados em revistas científicas interpretam o mesmo acontecimento verídico. Aproveitando a chegada do DVD, o que dizem esses estudos a um profissional como o leitor do Negócios?   

     

Primeiro, que os objetivos impossíveis podem ser... impossíveis. Há um recente encantamento pelo atingimento de objetivos impossíveis. Estes, todavia, podem revelar-se excessivos. Nesse caso, o que começa por ser uma forma de autoconfiança aditivada pode acabar como exercício de "hubris", a arrogância dos que se julgam sem limites.    

 

Para contrariar este risco, é importante cultivar a humildade. Ser humilde não é pensar menos de si, mas pensar menos em si. O desejo de chegar ao topo pode representar uma expressão de narcisismo, o desejo de ser herói no filme das nossas vidas. Muitos heróis do mundo organizacional, como explicou Jim Collins, são heróis discretos. Preferem passar despercebidos em vez de caminharem sob a luz dos holofotes. Curiosamente podem acabar por ser apreciados como heróis normais. Algumas das vítimas da tragédia do Evereste de 1996 foram atacadas pela pulsão narcisista.   

           

Finalmente, as regras críticas não devem ser esquecidas. Para evitar que o narcisismo destrutivo se sobreponha ao bom senso e ao julgamento equilibrado, é importante estabelecer regras e respeitá-las. As boas regras e a boa governança existem para impedir erros hubrísticos. Movidos pelo desejo de sucesso, os alpinistas decidiram esquecer as regras que eles mesmos haviam definido: que a determinada hora era necessário descer, estivessem onde estivessem, em relação ao topo.

 

Como escreveu Karl Weick, de Michigan, uma boa forma de aprender sobre organizações consiste em estudar outras realidades. A tragédia do Evereste mostra que a obsessão com o cume pode ser a melhor maneira de precipitar a queda.

 

Para continuar a explorar o assunto:

 

Kayes, D. C. (2004). The 1996 Mount Everest climbing disaster: The breakdown of learning in teams. Human Relations, 57(10), 1263-1284.

Tempest, S., Starkey, K., & Ennew, C. (2007). In the Death Zone: A study of limits in the 1996 Mount Everest disaster. Human Relations, 60(7), 1039-1064.

 

Professor na Nova School of Business and Economics

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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