Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 08 de junho de 2017 às 19:52

Longe do equilíbrio

O desequilíbrio é importante para a alta performance. O desafio, a tensão, a competição, as diferenças, têm um papel importante. A estabilidade nem sempre ajuda.

A vida surge fronteira do caos, indicam as novas ciências. É quando tudo se altera, quando a matéria é instável, que surgem sistemas vivos; sistemas que se adaptam, mudam e florescem.

 

A noção "longe do equilíbrio", das ciências da complexidade, indica que os seres vivos, e por isso as pessoas e as organizações, sobrevivem e prosperam em situações instáveis, em condições de desequilíbrio. Ou seja, em geral, não é em situações harmoniosas que um profissional dá o seu melhor. Bem pelo contrário, é em situações de desequilíbrio, de desafio, que se obtêm os melhores desempenhos. Tantas vezes se espera pelo bom momento, pela situação ideal, para aí, sim, se dar o melhor. Mas pode ser um erro. Se tudo estiver tranquilo e nós descansados, o mais provável é que nada de especial aconteça.

 

Ao contrário do pensamento científico mais tradicional, que aceita mal o desequilíbrio, a perspectiva da complexidade, das novas ciências, recebe-o bem. O desequilíbrio pode ajudar a crescer e a prosperar. É nas "deadlines" apertadas que trabalhamos melhor, que a concentração e a produtividade disparam. Na universidade e no liceu, os estudantes - e os professores… - sabem bem que é na véspera do exame que se estuda com mais eficácia… "Ah, se tivesse estudado assim há alguns dias…", lamentam às vezes os estudantes. Com tempo temos tempo, não estamos desequilibrados, não nos concentramos ao máximo, não damos o melhor e os bons resultados são mais difíceis de atingir. O desequilíbrio é bom para a performance. A urgência, a oportunidade, o correr do tempo foca-nos, acelera-nos, desafia-nos e puxa pelo nosso melhor. Por isso, o conselho habitual: se queres uma coisa bem feita e depressa, entrega-a a alguém com uma agenda cheia.

 

Existe alguma evidência de que numa equipa profissional a diversidade favorece o alto desempenho. Os grupos cujos membros são parecidos uns com os outros, partilhando culturas, nacionalidades, educação, costumam trabalhar melhor, pensa muito boa gente. Acredita-se que os grupos mais diversificados, com profissionais de diferentes nacionalidades, culturas, etc., tendem a ter desempenhos menos satisfatórios. Pensa-se que trabalhar com "outsiders", com gente diferente de nós, é difícil, que causa fricções, desentendimentos e que se avança mais devagar.

 

Mas estudos publicados nestes últimos anos indicam que a diversidade num grupo profissional pode ser positiva. Numa investigação publicada na Harvard Business Review refere-se que em pequenos grupos, a entrada de um participante com um perfil diferente - por exemplo, alguém de outra nacionalidade - tende a aumentar as probabilidades de o grupo tomar decisões correctas. A comunicação eficaz é mais difícil e o trabalho será mais exigente, mas pode ser isso mesmo que leve a melhores resultados. Trabalha-se mais e consegue-se mais. Alguns estudos indicam, no entanto, que as vantagens dos grupos com maior diversidade assentam no reconhecimento dessas mesmas diferenças e na intenção de retirar desse facto essas mesmas vantagens.

 

Concluindo, saber desequilibrarmo-nos é importante; desafiarmo-nos e desafiar a equipa, desequilibrarmo-nos para que só um bom desempenho, o atingir dos objectivos, possa trazer o sentido de realização e um novo equilíbrio.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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comentários mais recentes
surpreso 08.06.2017

Quem é este bronco do Fernando?

Marta Guimaraes 08.06.2017

Ó surpreso!
Cala a boca retornado ressabiado. Para lixo já chega o que escreves no Observador com o nick victor guerra.

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