Fernando  Sobral
Fernando Sobral 09 de maio de 2017 às 19:33

Macron e a ideologia da crise

No xadrez, quando se joga sem uma estratégia de longo prazo, as decisões de um jogador acabam por ser apenas reactivas.

E assim ele acaba por reagir em função do jogo do oponente e não do seu próprio. Esse é, de alguma maneira, o problema do sistema que governa a Europa. O seu jogo foi hegemónico, impondo um fim da história com o célebre princípio do "não há alternativa". Mas agora a Europa confronta-se com um jogo que lhe troca as voltas. E está apenas a reagir aos acontecimentos. A vitória de Emmanuel Macron é um sintoma disso. O "europeísmo" de Macron serve apenas para disfarçar que já não é Bruxelas que controla a agenda política. Le Pen perdeu, mas se dentro de cinco anos Macron decepcionar, regressará com mais força, seja como Marine, seja como Marion Maréchal. A Europa, tal como o bloco central de interesses que a tem governado no pós-guerra à boleia do crescimento económico que permitiu o Estado de Bem-estar, faliu. Não só economicamente, mas como oásis de ideias e modelo moral para o mundo. A destruição social que foi feita em nome da saúde das finanças públicas criou fantasmas perenes.

 

O pior da crise foi a ideologia da crise que ficou instalada. E, nesse aspecto, em Portugal, Passos Coelho foi o mais tenaz propagandista desta ideologia em que se tem de aceitar a pobreza como algo natural. Nunca hoje foi tão claro que a política não se articula para o bem comum, algo que Carl Schmitt já dizia. A sua missão é apenas a conquista do poder. O problema é que a Europa já não é um território de todos. Tornou-se um produto de luxo só para alguns. A redução da Europa a uma entidade económica criou os vírus que alimenta os seus Darth Vaders. Que Macron não destruiu. O problema da Europa é de défice espiritual. De crença. E é no meio desse vácuo que Macron pode ser uma barragem. Mas a água tem muita força quando está descontrolada.

 

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