José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 29 de junho de 2017 às 00:01

Maldita história

Não é o facto dos índices acionistas americanos estarem em máximos que imuniza a economia de um tropeção.

A FRASE...

 

"Continuamos a esperar que a economia se expanda a um ritmo moderado no decurso dos próximos anos."

 

Janet Yellen, Presidente da Reserva Federal, 14 junho 2017

 

A ANÁLISE...

 

A seguir à eleição de Trump foi perguntado a um comentador o que previa a história para o novo presidente. A reposta foi perentória: 100% de probabilidade de recessão. A conclusão surge da seguinte regularidade estatística: desde 1910 que a economia americana está ou entra em recessão (num espaço de 12 meses) sempre que termina uma presidência de dois mandatos. Sendo que Obama cumpriu dois mandatos, será que esta maldição da história recairá sobre Trump? Receio que sim, tanto por razões conjunturais como por estruturais.

 

Numa perspetiva conjuntural, a atual fase expansionista é já a segunda mais longa da história americana do pós-Guerra e tem vindo a perder vigor desde 2015, altura em que a Reserva Federal começou a apertar as condições monetárias e a subir as taxas de juro. Tal conjunto de circunstâncias sugere a proximidade de uma recessão nos EUA. E não é o facto dos índices acionistas americanos estarem em máximos que imuniza a economia de um tropeção. De notar que o pico do último ciclo de valorização acionista ocorreu em setembro de 2007, três escassos meses antes do início da maior recessão em quase cem anos.

 

Na vertente estrutural, a limitação da presidência a dois mandatos (imposta em reação aos quatro de Roosevelt) incute incentivos perversos, que se traduzem na tentação de manipulação do ciclo económico em função do objetivo da reeleição. Esta estratégia tende a alinhar o pico do crescimento da atividade com o final do primeiro mandato de cada presidente e, logo, com o início do mandato seguinte. Daí que, a menos de um choque violento e inesperado, é pouco provável que o inquilino da Casa Branca a seguir a um primeiro mandato receba uma economia em recessão. Em contraste, quem entra a seguir a um duplo-termo presidencial vê-se a braços com as consequências perversas da manipulação da economia para efeitos eleitorais. Não há mal que sempre dure, mas não me parece que seja desta que a história nos vai enganar.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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