Luis Nazaré
Luis Nazaré 28 de novembro de 2017 às 19:44

Matrix

Os impactos da globalização e do desenvolvimento tecnológico não se esgotam na transformação dos modelos de negócio ou na oferta de produtos e serviços inteligentes.

Estudos recentes sugerem que o comportamento e a atitude profissional dos jovens quadros atravessam uma fase de mutação marcada por um progressivo distanciamento dos objectivos corporativos em favor dos departamentais. Ao mesmo tempo, parecem acentuar-se os sintomas de individualismo, arrumados em subculturas tribais. Para rematar o quadro de tendências, os jovens serão hoje menos sensíveis às questões da ética do que no passado, apesar do esforço que as universidades vêm empreendendo em sentido contrário. A que se devem estes fenómenos?

 

A principal razão prende-se com a vertigem concentracionista que tem dominado o mundo empresarial desde os anos 80 do século passado. O número de empresas de média e grande dimensão que conseguem resistir às investidas das corporações internacionais, mantendo a sua composição accionista original, é cada vez menor. A globalização dos mercados de controlo, a especialização industrial, a procura incessante de escala e de níveis superiores de eficiência, com as consequentes necessidades de integração global das operações, têm conduzido a uma cascata de aquisições sem precedentes. O resultado é uma distância cada vez maior entre a base laboral e os centros de decisão (os headquarters mundiais ou regionais). Na malha densa das modernas estruturas multinacionais, os quadros domésticos só vêem a cara dos dirigentes máximos em mensagens de Natal ou em teleconferências via internet.

 

O organograma matricial, por vezes de tripla dependência, é a motherboard do sistema de gestão global. Nele, as áreas domésticas de produto ou funcionais depende de um chefe estabelecido algures noutro país, o qual, por sua vez, presta contas a um outro, igualmente distante, e por aí fora até ao topo da pirâmide. Hoje, os chamados country managers pouco mais têm do que tarefas de representação institucional. Nesta lógica, cada departamento tende a transformar-se numa ilha, configurada por sistemas de informação de gestão minuciosos e impessoais. Não espanta, pois, que as relações interdepartamentais estejam em crise e que, não raro, os profissionais de uma área desconheçam por completo os objectivos da organização no seu todo.

 

Desde o início da sua vida profissional, grande parte dos jovens é aculturada por matrizes de natureza não-colaborativa, tecno-individualista, sujeita a apertados mecanismos de controlo e sistemas de incentivos ferinos, de orientação marcadamente quantitativa e horizonte temporal de curto prazo. É com essa formatação que eles vão procurar singrar na vida. Bem podem as escolas de economia e gestão multiplicar as disciplinas de ética nos seus currículos, sensibilizar os estudantes para os méritos da cooperação e do trabalho em equipa. O sistema nunca se engana e raramente perdoa a quem tem dúvidas.

 

A figura do mês: Tony Carreira

 

António Antunes, o popular Tony Carreira, cometeu um dos pecados mais comuns no meio artístico, intelectual e científico. Emulou uns acordes de umas músicas ligeiras de autores de outras proveniências (sabe-se lá onde se foram inspirar!) e, vai daí, fez suas umas modinhas de encantar o Pavilhão Atlântico (ou Meo Arena, ou Altice, ou outra coisa qualquer).

 

Copiam-se diariamente teses, textos, fórmulas, marcas, desenhos e processos, com a facilidade e a impunidade que a sociedade de informação abriu. Piratas sempre existiram, é certo, mas nunca como agora milhões puderam aceder, de portas escancaradas, às ideias de milhões. Uns protegem-nas, outros não. Alguns são descobertos, muitos não.

 

Tony Carreira foi descoberto e teve a única atitude inteligente que um ídolo popular poderia ter - aceitou o facto e matou uma diligência legal que lhe poderia acarretar graves consequências reputacionais. À americana, propôs-se doar, como compensação, 20 mil euros às vítimas dos fogos. Se todos os "criadores" fizessem assim, os problemas da humanidade seriam bem menores.

 

Número do mês: 600 euros

 

Há muito tempo que vem sendo referido como o patamar da dignidade para o salário mínimo nacional, mas neste Novembro da discussão orçamental o tema regressou em força. E veio para ficar. Ao lado da esquerda da geringonça, os sindicatos e algum patronato esclarecido sustentam os 600 euros como o valor compatível com a ambição nacional de promover o trabalho qualificado e a decência.

 

Estranhamente, do outro lado da barricada, a CIP faz um jogo táctico de resistência. Agastada, com razão, pela falta de sensibilidade do OE 2018 às preocupações do tecido empresarial, a central patronal ameaçou com uma espécie de greve aos eventos governamentais. De pressão e passos de dança, as corporações conhecem como ninguém - é ver os sindicatos da função pública.

 

António Saraiva é um homem sábio e preocupado com o país, mas está irritado. O oposto da bem-sucedida Fenprof. É tempo de cruzarem competências negociais. Há momentos em que a cedência de uma vasa fácil faz uma mão vencedora.

 

Economista; Professor do ISEG/ULisboa

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