Fernando  Sobral
Fernando Sobral 08 de janeiro de 2018 às 22:17

Médio Oriente: uma crise sem fim 

O Sudão é o maior fornecedor de tropas para a aventura saudita no Iémen. Será que o golpe contra o Irão se virará contra a Arábia Saudita?

A crise no Irão, convenientemente empolada pelos EUA, por Israel e pela Arábia Saudita, diz muito sobre o que vai ser 2018 no Médio Oriente: uma luta entre Riade e Teerão. Com intervenientes muito próximos (Turquia, Rússia, Qatar e Emirados Árabes Unidos) e outros mais afastados, mas muito interessados (China, Paquistão, Egipto e Sudão). Não é preciso recuar muito no tempo para ver que o que aconteceu no Irão bebe muito do que sucedeu na Síria: manifestações por razões económicas, que se transformaram em políticas e que acabaram em guerra civil. A mesma estratégia está a ser seguida no Irão e a resposta do Governo está a ser a mesma de Bashar al-Assad: repressão. Mas as condições são diferentes.

Não deixa de ser curiosa a posição de Donald Trump e da sua embaixadora na ONU, defendendo a "liberdade", quando o Irão sabe o que esperar de Washington. A memória não é aqui traiçoeira: foi a CIA que patrocinou o golpe de Estado de 1953 que afastou Mossadegh e impôs o Xá. Se juntarmos a isso a luta pela hegemonia na região, as aventuras atrozes de Riade no Iémen (com o apoio de Washington), a tentativa de asfixia do Qatar e do Líbano, entende-se melhor a estratégia de Trump. A que se alia a OPV da Saudi Aramco, que deverá ver a luz do dia na bolsa de Nova Iorque.

 

O verdadeiro líder da Arábia Saudita, o príncipe herdeiro (que já afastou internamente a concorrência), Mohammed bin Salman, está empenhado no seu plano de reforma do reino e na tentativa de ser a potência liderante na região. E conta com Trump. Mas se este cair, dificilmente os EUA seguirão uma estratégia semelhante. Os outros países da região estão nervosos: porque sabem que os EUA, como ameaçam fazer no Irão, possam activamente promover qualquer tentativa de golpe de Estado no seu país. Como a Turquia bem desconfia desde o "caso Gulen", o clérigo que continua em terras americanas. Por isso, as pedras movem-se. Os EUA tentam cercar o Irão, fingindo que o problema são as questões nucleares (algo que a Europa sabe que não são). Neste contexto, é significativo o acordo assinado em Cartum entre o Sudão e a Turquia, para que esta reabilite o porto da ilha de Suakin, que dará acesso a Ancara ao mar Vermelho. As tropas de Ancara ficarão muito próximas da cidade de Jeddah, na Arábia Saudita. Riade ficou nervosa. O dinheiro para a base deve vir do Qatar. Outra nota: o Sudão é o maior fornecedor de tropas para a aventura saudita no Iémen. Será que o golpe contra o Irão se virará contra a Arábia Saudita?

 

China/Índia/França: manobras no oceano Índico

 

Muito do que se tem assistido nos mares do Sul da China está a transferir-se gradualmente para as anteriores águas do Índico. No meio da nova tensão está aquilo que a Índia julgava ser uma zona de influência e que China vai disputando à boleia da sua iniciativa económica. Por perto, atenta, está França, o país com mais interesses territoriais na região. As Seychelles, por exemplo, são um dos palcos dessa luta pela liderança no Índico. Com apenas 650 militares, as ilhas têm dos menores exércitos do mundo.

 

Em Novembro, o general chinês Wang Guanzhong, da Comissão Central Militar da Chona, visitou Victoria a capital das Seychelles. E um dos tópicos da conversa foi a "cooperação militar". Isto no meio de outras reuniões com diferentes dirigentes chineses onde se apostou no reforço da cooperação económica. Pequenas, e com pouca população, as Seychelles são estrategicamente muito importantes, entre África, a Península Arábica e o subcontinente indiano. E são um pólo importante na iniciativa "Rota da Seda" chinesa ou "One Belt, One Road". Isso não deixou de incomodar a Índia, que fez rumar o seu MNE até às ilhas. Para reforçar a relação estratégica entre os dois países. Não é um acaso: o oceano Índico é uma das mais importantes e contestadas vias marítimas. Isso foi notório quando Trump falou da região na sua viagem pela Ásia: deixou de falar em "Ásia-Pacífico" e falou antes de "Indo-Pacífico". Os EUA contam com a Índia para travar o crescimento chinês na zona. Não é um acaso: mais de 60% do petróleo exportado via marítima passa pelo Índico, nomeadamente o que vai do Médio Oriente para as maiores economias asiáticas. A iniciativa chinesa "OBOR" prevê a construção de estradas, caminhos-de-ferro e portos que facilitarão as rotas comerciais marítimas.

 

Uma presença discreta no Índico, mas muito forte, é a de França. Paris controla mais territórios neste oceano do que qualquer outra nação. E parece querer mostrar que ali também conta a sua voz. Na Reunião, por exemplo, usa-se o euro. Na ilha, França mantém um regimento de soldados bem como aviação. Fora a base americana de Diego Garcia, França é uma presença forte, militar e economicamente. Além da Reunião (e Mayotte), Paris controla as ilhas Kerguelen, o arquipélago Crozet, as ilhas St. Paul e Amsterdam e outros ilhéus junto de Madagáscar: Juan de Nova, Europa, Bassas da Índia, Gloriosa e Tromelin, todas sem população residente. Em Mayotte, há um destacamento da Legião Estrangeira. No Índico, calcula-se que França tenha 1.900 navios e aviões e 1.350 soldados, estacionados em Djibouti. Aém disso, tem uma base nos Emirados Árabes Unidos. Mais para lá do Índico, França tem possessões no Pacífico Sul: Nova Caledónia, Polinésia e Wallis e Futuna, o que dá uma dimensão da sua força estratégica.

 

Macau: casinos sobem

 

Os casinos de Macau obtiveram em 2017 uma receita bruta de 33.217 milhões de dólares, valor que representa um aumento de 19,1% relativamente ao montante de 223.210 milhões de patacas contabilizado em 2016. A receita bruta obtida em Dezembro ascendeu a 2.837 milhões de dólares, tendo crescido 14,6% comparativamente com o período homólogo de 2016. Dezembro representou igualmente o décimo sétimo mês consecutivo de aumento homólogo da receita bruta, após uma série de 26 meses de quebra iniciada em Junho de 2014, que apenas veio a ser invertida em Agosto de 2016, mês em que se registou um crescimento modesto em termos homólogos de 1,1% para 2.354 milhões de dólares. No final do terceiro trimestre de 2017, havia em Macau 40 casinos das seis concessionárias, sendo 22 da Sociedade de Jogos de Macau, seis da Galaxy Casino, cinco da Venetian Macau, quatro da Melco Crown Jogos (Macau), dois da Wynn Resorts (Macau) e um da MGM Grand Paradise, que dispunham de 6.449 mesas e 16.310 máquinas de jogos.

 

China: mais comércio

 

As trocas comerciais entre a China e os oito países de língua portuguesa ultrapassaram 100 mil milhões de dólares no acumulado de Janeiro a Novembro, tendo aumentado 29,47% em termos homólogos para 107,75 mil milhões de dólares. Nos primeiros 11 meses do ano, a China exportou para os oito países de língua portuguesa mercadorias no valor de 32,99 mil milhões de dólares (+23,66% em termos homólogos) e importou bens cujo valor ascendeu a 74,75 mil milhões de dólares (+32,21%), assumindo um défice comercial de 41,76 mil milhões de dólares. Com o Brasil, o principal parceiro comercial da China em termos mundiais, as trocas ascenderam a 80,03 mil milhões de dólares (+29,19%), com as empresas chinesas a terem vendido bens no valor de 26,25 mil milhões de dólares (+31,91%) e a terem comprado mercadorias brasileiras no montante de 53,78 mil milhões de dólares (+27,91%).

 

Angola surge no segundo lugar desta lista com um comércio bilateral de 20,65 mil milhões de dólares. O comércio bilateral da China com Portugal atingiu no período 5,15 mil milhões de dólares (+0,43%), com exportações chinesas no montante de 3,22 mil milhões de dólares (-13,31%) e exportações portuguesas que atingiram 1,92 mil milhões de dólares (+36,53%). 

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