Baptista Bastos
Baptista Bastos 11 de Novembro de 2016 às 10:20

Memória singela de outros tempos e de velhas amizades

O mundo está, outra vez, cheio de grandes esquecimentos e de lacunas culturais indesejáveis. Temos de nos recauchutar com as memórias pessoais e afectuosas, reabilitando os sonhos que ainda não se perderam.
Nada fazia prever a derrota de Hillary Clinton, embora se admitisse que a sua eventual vitória não obtivesse um resultado impressionante. Aconteceu, com surpresa, o contrário. Agora, os analistas andam com a cabeça aos roldões, tentando perceber a natureza dos resultados. Os Estados Unidos alimentam estes sobressaltos. Desde a Comissão de Actividades Antiamericanas, nos anos de 60, dirigida pelo senador do Wisconsin, Joseph McCarthy, acolitado por Roy Cohn, os sobressaltos não param, com pequenos intervalos. Nesse período, o medo foi uma instalação permanente, levando à ignomínia nomes consideráveis, e à fuga para a Europa de criadores como Chaplin, entre dezenas de outros mais.

Nesses anos tempestuosos, eu era um jovem repórter indignado e escrevi dezenas de crónicas em O Século Ilustrado. Por esses tenebrosos tempos, publiquei dois livros, "O Cinema na Polémica do Tempo" e "O Filme e o Realismo", de que me orgulho e resguardo. Mal ou bem, marquei o meu tempo, e o Diário da Manhã da época, assim como O Tempo Presente, revista assustadoramente fascista, denunciavam-me com persistente cuidado. Um desses perseverantes acusadores era um tal Domingos Mascarenhas, coitado, já lá está.

A crítica de cinema, por exemplo, tornara-se num baluarte da Resistência, e guardo desses tempos a terna recordação de um combate perigoso, imperioso e necessário. Conservo, ainda hoje, a amizade por José Vaz Pereira, que costumava rever na Versalhes, fins de tarde, um ou dois bolos e um bule de café com leite, atenuando, talvez, a discreta nostalgia desses tempos ominosos. Não há, nesta modesta confissão, nada de grandioso: apenas o relatório de um facto e a memória das amizades. Foi um tempo difícil por prolongado. Mas já foi.

Guardo recordações preciosas dessas épocas. Dos amigos, da natureza comovente das amizades que perduraram, das histórias singelas das cumplicidades. Ainda há dias recebi, de José Peixoto, amigo de Braga, uma comovente carta com um recorte activo de uma daquelas manifestações em que muitos de nós arriscavam tudo favorecendo a liberdade. Sou apenas um entre muitos jovens e outros que somente desejavam ser felizes. Que esta afirmação fique bem distinta e assinale, somente, o que modestamente ambicionávamos. Nada de prémios nem de consagrações. Quem foi, foi, chamado pela natureza imperiosa dessas épocas, sem nada pedir em troca. Mas sou desse tempo, pertenço a essas lutas e a esses respeitos morais.

O meu desprezo por gente como Reagan ou W. Bush advém do meu desejo imaculado de ser feliz. E a ascensão de Donald Trump, como manigância de uma ordem imperial, não me assusta. Cá estou, acaso cheio de desgostos e de idade, mas sempre prestes ao regresso dos sonhos, embalados desde miúdo. Trump é o resultado inevitável de umas democracias alimentadas pela venalidade. Sei muito bem do que falo, e não há investida que consiga demolir o que embalo desde rapaz. Queria dizer-vos isto, com modéstia e aplicação, sem outro desígnio que não seja o de me manter fiel à minha juventude e aos meus sonhos. E, também, aos meus amigos antigos.

O mundo está, outra vez, cheio de grandes esquecimentos e de lacunas culturais indesejáveis. Temos de nos recauchutar com as memórias pessoais e afectuosas, reabilitando os sonhos que ainda não se perderam. Queria também dizer-vos que as ameaças veladas ou declaradas do novo Presidente norte-americano são reedições do que outros disseram. Os outros já foram, levados pela graça do Senhor. Também tocados pela mesma graça, ou por outras, tanto faz, nós cá vamos indo. Na memória residem as coisas que não renegamos, e embalando no pensamento caloroso todos aqueles que nunca traíram.


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mais votado surpreso Há 3 semanas

As armas que os teus amigos Clinton-Obama colocaram nos terroristas,os 300 mil mortos e os 6 milhões de refugiados ,não te incomodam.O Gulag foi bem pior

comentários mais recentes
Anónimo Há 2 semanas

E o tango a dois que já se dança na Russia desde à muitos anos a esta parte. nao aflige este senhor. Ou já nao tem tinta para escrever sobre eles? Santa paciência.....

Tudo muda menos este individuo que parou no tempo Há 2 semanas

Tenho que admitir que este senhor comunista tem uma prosa fluída, porém, o seu conteúdo quase sempre não me agrada por ver os problemas sempre na óptica comunista. Além de estar ultrapassado porque o mundo evoluiu e não parou, ele, continua lá atrás. com nostalgia do passado que não volta

Di /di /leto Há 2 semanas

Não interessa o sentimento se a sepultura o come /Levante-se a lage erga-se o que nela dorme / Toque a trombeta, reconstrua-se a silhueta e no ar seremos anjos /Sigamos em frente já somos presente e eles serão marmanjos ! A Versalhes dum lado ,do outro o Galeto,hoje são avenida amanhã esqueleto!

surpreso Há 3 semanas

As armas que os teus amigos Clinton-Obama colocaram nos terroristas,os 300 mil mortos e os 6 milhões de refugiados ,não te incomodam.O Gulag foi bem pior

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