Álvaro Nascimento
Álvaro Nascimento 10 de julho de 2017 às 20:25

"Miserere nobis!"

Criadas sem fins lucrativos e com receitas próprias reduzidas, as IPSS vivem do grande espírito de solidariedade dos portugueses e dos contributos do Estado.

A FRASE...

 

"À União das Misericórdias interessa um banco de economia social, que 'apoie as Pequenas e Médias Empresas (PME), instituições de economia social e pessoas que precisam de pequenos empréstimos'."

 

Manuel Lemos, Jornal de Negócios, 3 de Julho de 2017

 

A ANÁLISE...

 

A intenção de construir um banco para servir a economia social em Portugal, com a participação das instituições particulares de solidariedade social (IPSS) no capital do Montepio seria um passo errado, misturando as debilidades que existem em ambas as instituições, e que carecem de respostas diferenciadas.

 

Bancos e misericórdias são instituições de partilha de riscos, mas com atitudes muito distintas no que se refere à origem dos seus recursos e às suas aplicações. O inusitado voluntarismo das misericórdias em apoiar um banco para as "instituições da economia social e das pessoas que precisam de pequenos empréstimos" traz novos riscos para um sector já de si débil.

 

Criadas sem fins lucrativos e com receitas próprias reduzidas, as IPSS vivem do grande espírito de solidariedade dos portugueses e dos contributos do Estado. Globalmente, são instituições com fragilidades financeiras assinaláveis, como o fazem sentir repetidamente os seus responsáveis. Investir no sector bancário, com os objectivos a que se propõem, pode ser uma iniciativa louvável, mas não é isenta de custos.

 

Não podemos ignorar a especificidade da gestão de riscos da atividade bancária - ou melhor dizendo, o papel e as funções dos bancos. Não devemos alimentar a ilusão de que um banco para a economia social permite o acesso a financiamento em condições mais vantajosas - i.e., taxas de juro mais baixas - sem que haja uma subsidiação da sua actividade, seja pelos associados ou, em última instância, pelo Estado.

 

Para que o seu negócio fosse autossustentável, as taxas de juro teriam de ser elevadas, em conformidade com a incidência de incumprimento neste segmento. Na Europa a oferta de crédito à economia social não é, normalmente, levada a cabo por bancos tradicionais. Antes é atomizada, realizada por organizações de pequena dimensão, de âmbito local, com reduzido acesso a fontes externas de financiamento e apoiando-se em fundações e instituições públicas.

 

Por tudo isto, a inclusão das misericórdias no capital social do Montepio teria de resultar num posicionamento completamente novo e na assunção de novos compromissos, a somar àqueles que já hoje estas instituições enfrentam!

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
Anónimo 11.07.2017

Desmantelem o negócio (amplamente subsidiado) da caridade. Criem um módico Rendimento Básico Universal.

surpreso 11.07.2017

Invistam no Montepio e ficarão "ricos"

FVV 11.07.2017

Olha lá, ò Álvaro? Quem te encomendou este EMBUSTE das IPSS?
Para te encher a boca de M**r*DA vai ver o que se passa com a do Sobralinho em Alverca e segue depois para o Centro Helen Keller em Belém e audita os honorários do Marques Mendes, fora os três filhos que lá estudaram à borla.

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