António Moita
António Moita 17 de dezembro de 2017 às 18:46

Morreu uma andorinha raríssima 

É absolutamente inestimável o contributo que milhares de portugueses dão a mecanismos de proteção social privados ou cooperativos substituindo-se com vantagem a um Estado pesado, lento e distante das pessoas.

Falar da Raríssimas hoje é trazer à tona o melhor e o pior que a sociedade portuguesa tem. De um lado, o espírito de iniciativa, o interesse pelos outros, a capacidade de despertar a sociedade civil para causas nobres, a obra que pouco a pouco vai nascendo e servindo quem mais precisa. Do outro, temos a vaidade, o oportunismo, o complexo social, o aproveitamento daquilo que não é só nosso, o encobrimento cúmplice.

 

É absolutamente inestimável o contributo que milhares de portugueses dão a mecanismos de proteção social privados ou cooperativos substituindo-se com vantagem a um Estado pesado, lento e distante das pessoas. Este modelo português, que não tem paralelo em dimensão e abrangência noutros países europeus, permitiu ultrapassar momentos de extrema dificuldade económica e garantir níveis mínimos de dignidade a milhares de famílias mais fragilizadas.

 

Este papel que instituições como a Igreja ou os milhares de IPSS desempenham na sociedade portuguesa é de enorme relevância e continua a merecer o apoio empenhado do Estado. Claro que a esquerda mais radical não perdeu a oportunidade de zurzir na iniciativa privada, os abutres do costume, afirmando que é ao Estado que de forma direta compete assegurar a proteção social dos cidadãos. Tudo aquilo que comunistas e bloquistas não controlam de forma ativa e permanente é para liquidar.

 

Mas a "economia social" deve obrigar-se à observância das melhores práticas de gestão e de transparência na aplicação dos recursos que lhes estão confiados. Especialmente quando boa parte destes recursos são públicos. Medidas preventivas, mesmo que legalmente não previstas, de rotatividade em funções diretivas, de publicidade das decisões ou de consultas regulares ao mercado deveriam ser propostas e seguidas em cada uma das associações sem fins lucrativos existentes de norte a sul do país. Para sua defesa e nosso sossego. Como cantava o poema de Frederico de Brito com música do Fado Menor, "por morrer uma andorinha, não acaba a primavera".

 

Jurista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico
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