Fernando  Sobral
Fernando Sobral 20 de Outubro de 2016 às 09:58

Mossul, a ofensiva aliada e o futuro do Daesh

Será uma batalha longa e sangrenta para reconquistar a cidade iraquiana de Mossul. E ela poderá conduzir a uma vaga de refugiados enorme e à fuga de muitos militantes do Daesh rumo à Europa.


O major-general Jonathan Shaw (que comandou as Forças Aliadas em Basra, em 2007) escreve no Guardian, que: "O chamado califado do ISIS/Daesh pode ser derrotado militarmente. Mas como ideologia só pode ser enterrado por uma contra-narrativa dentro dos sunitas, dentro da comunidade religiosa dos wahhabitas." E acrescenta: "Como Henry Kissinger observou há alguns anos, 'declarações políticas sem capacidade militar são presunções vazias'. Os dividendos europeus de paz no fim da Guerra Fria, e dos britânicos após o Afeganistão, levaram a uma confiança no 'soft power' para promover acordos sem os meios para os fazer cumprir se fossem violados." Não poderia ser mais claro sobre a União Europeia.

Conhecedor do terreno, Patrick Cockburn escreve no Independent: "Mossul tem sido um sítio perigoso desde a invasão liderada pelos EUA em 2003. É a maior cidade sunita do Iraque durante uma era em que os sunitas perderam a sua velha predominância e lutaram contra os governos dominados pelos xiitas em Bagdade e os governantes curdos na porta do lado do Iraque curdo. (…) O ISIS/Daesh beneficiou do medo entre os sunitas sobre o que aconteceria na cidade se o exército iraquiano e os paramilitares xiitas voltassem." Porque a violência sectária no Iraque criou "ilhas de medo". Cada vez maiores. No turco Hurriyet, Mustafa Akyol olha para a perspectiva de Ancara: "Afinal se a necessária destruição do domínio do ISIS se transformar na temida dominação xiita, os sunitas de Mossul só terão um sítio seguro para ir: a Turquia. Isso significará mais um milhão de refugiados a caminho da Turquia, que já alberga três milhões de refugiados." O futuro é temível.


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